NILSON CÉSAR


Entrevista realizada por Emilcio Rogério Zuliani, na sede da Jovem Pan, na Avenida Paulista, dia 10 de fevereiro de 2009.

FOTOS: Álvaro Aiose Junior.



Nilson César Piccini Favara, 47 anos. Nasceu dia 10 de novembro de 1961 na cidade de Sorocaba, no interior do Estado de São Paulo. “Não troco por nada, é onde recarrego minhas energias", diz o narrador esportivo, sobre sua cidade natal.


 

01) Conte-nos sobre o início de sua carreira. Você começou no Rádio em que ano?  Como chegou na Jovem Pan?

Comecei no Radio em 1978, paralelamente entre as Rádios Clube de Sorocaba e Rádio Convenção de Itú. Agora em 2008 completei 30 anos de profissão. Meu início foi com 16 anos de idade. Fiquei pouco tempo no Rádio do interior, entre os 16 e 20 anos de idade. Tenho 47 anos de idade, e 27 anos de “Pan”, ou seja, mais da metade da minha vida passei dentro da Jovem Pan.

Vim para a Rádio Jovem Pan em 1982, pouco antes da Copa da Espanha, pois os três narradores: José Silvério, Edemar Annuseck e José Carlos Guedes, iriam para a Copa, e não havia nenhum narrador para ficar aqui. Decidiu-se então, testar um garoto que fora indicado pelo então Delegado de Sorocaba, Dr. Cássio Salermo, muito amigo do Fernando Viera Melo (pai), então diretor artístico da emissora - que coincidentemente teve suas origens também na cidade de Sorocaba.

Outra curiosidade, é que a minha estréia na Pan ocorreu no mesmo dia em que fui apresentado como reforço (temporário) da emissora. O Fernando Vieira questionou, se eu realmente sabia transmitir partidas de “Futsal”, e respondi:
- “Na minha cidade (Sorocaba) tem o maior campeonato de futebol de salão do mundo”.
A resposta de Vieira foi pronta:
-  “Além de me mandar um caipira, o Cássio me mandou um mentiroso! Por que em Sorocaba tem o maior campeonato do mundo?
E eu respondi:
- “Em Sorocaba tem 500 equipes que participam”...
E o Fernando continuou:
- "Então está bem. Já que você transmite Futsal, você vai transmitir hoje a noite partida entre Brasil x Uruguai, lá do Ginásio do Ibirapuera”.
Na hora quase “urinei nas calças” pois eu era um garoto! Mas foi fantástico, porque aprendi que na Jovem Pan é assim mesmo, as coisas funcionam desta maneira.

 

02) Então você narrava Futebol de campo e o de salão? Quais equipes você acompanhava pelas emissoras de Sorocaba e de Itú?

Eu acompanhava o São Bento na Rádio Clube de Sorocaba, onde eu tive minha primeira oportunidade. E em Itú, eu narrava o Ferroviário, que depois veio a se tornar o Ituano. Além do Ferroviário de Itú, eu cobria em na cidade de Salto a Saltense. Em Campinas narrava o Guarani, e em Indaiatuba tinha o Primavera, que era o alcance da Rádio Convenção.  emissora pegava em Itú, Salto e Indaiatuba. Mas na divisão principal, o foco era o São Bento de Sorocaba.

Acontece que os donos da emissora de Itú acreditavam tanto em mim “garoto”, que em dia de grandes jogos e clássicos, me traziam à São Paulo para que eu pudesse transmitir e ganhar experiência, e pudesse acostumar e interagir com a grande mídia. Então eu sou muito grato a essas emissoras, tanto a Rádio Clube de Sorocaba, quanto a Rádio Convenção de Itú. Porque elas acreditaram demais em mim. Observaram que eu tinha futuro, e poderia me tornar um locutor esportivo importante.
 

03) Então quer dizer que o grande “baque” que você sofreu em sua estréia na Rádio Jovem Pan foi em relação ao “prefixo da emissora”, e não tanto ao encanto de transmitir em São Paulo?

Ahhh lógico... Imagina começar trabalhando numa Jovem Pan! Eu cheguei aqui no primeiro dia, e sai pedindo autógrafo para todo mundo: Randal Juliano, Cândido Garcia, José Silvério, Milton Neves... E eu não sabia sair daqui da Av. Paulista e chegar no Ginásio do Ibirapuera. Foi muito engraçado, pois me levaram pro Ginásio, e quando acabou o jogo era mais de meia-noite, eu falei:
- "Como é que eu vou voltar pra Sorocaba? Tô sem nenhum tostão no bolso." E ainda estava sem comer o dia inteiro. Aí me colocaram num hotel, me lembro que era o Hotel Danúbio, na Av. Brigadeiro Luís Antonio, ali próximo do antigo prédio da Federação Paulista de Futebol.

No dia seguinte, liguei aqui pra Rádio Jovem Pan, e perguntei:
- "Como é que eu chego daqui do hotel, na Av. Brigadeiro, até aí na Rádio de novo?".
O Fernando Vieira de Melo que atendeu o telefone respondeu:
- "Além de ser mentiroso (sobre o campeonato de Futsal de Sorocaba), caipira, é analfabeto! Fica parado que nem poste na frente do hotel. Vai aparecer um carro que tem um “J” e um “P”. Você monta no carro e vem pra cá. E não abre a boca no caminho".

Quer dizer, eu não sabia ir da Av. Paulista até o Ibirapuera, e depois não sabia ir da Av. Brigadeiro Luís Antonio para Rádio Jovem Pan. E ainda fiquei a noite inteira sem comer nada, porque não sabia que podia abrir a geladeira no hotel. Quer dizer, eu era um “Jeca total”, um "caipira total". Eu só sabia o que era Sorocaba.

Eu conto essa história para estudantes de jornalismo em faculdades, e eles acham que estou brincando! Essa história é real. Esse era o jeito do Fernando Vieira de Melo (pai). Isso é o que aconteceu nos meus primeiros dois dias na Rádio Jovem Pan. O  Fernando falando pra mim:
- "Um caipira, mentiroso, um analfabeto...” E aí pensei comigo, “tô ferrado!”. Só depois descobri que esse era o estilo do Fernando, mas com um detalhe. Ele tratava assim, só quem ele gostava, com ele ia com “a cara”. Era essa a maneira de agir do saudoso Fernando Vieira de Melo.

Depois foi muito legal, porque ele e o Seu "Tuta" (Antonio Augusto Amaral de Carvalho), proprietário da Jovem Pan, gostaram muito do meu “jeitão” caipira. Eu sempre me dei bem na Pan por causa do meu “jeitão”, porque eu preservo toda essa coisa do caipira mesmo. Então, pra mim todo mundo é igual. Não tenho distinção entre as pessoas. Acho que as pessoas tem que carregar isso, porque mesmo que você evolua dentro da sua profissão, nunca vai esquecer sua origem, raízes, dificuldades, além de carregar o lado da humildade, ser querido, ser “gente boa”. Eu acho fundamental na vida preservar as origens.
 

04) Então estamos em 1982. Os outros 3 narradores voltaram da Copa do Mundo. E o que aconteceu com você?

Aí tem um detalhe interessante. O período da minha contratação era só durante a Copa do Mundo. Eu cheguei então pro “Seu” Fernando e pro pessoal da direção da emissora e disse o seguinte: - Se vocês me derem chance, eu não vou ficar só neste período da Copa não!
Então o Fernando respondeu: - "Oh seu moleque, seu analfabeto, to falando para você que é só o período da Copa..."

Nessa época, todos os dias quando chegava na Rádio eu assinava um “papelzinho de presença”, como uma folha de ponto. E quando os outros chegaram da Copa do Mundo, no dia seguinte não tinha mais o "papelzinho" pra assinar. No lugar tinha um bilhete escrito “passar no Departamento Pessoal”. Pensei, “xiiii to morto! O que o Fernando falou é verdade!

Cheguei no Departamento Pessoal, e um cara chamado Osvaldinho me atendeu e disse: - “Olha, tem esse papel, esse papel, esse...”, e eu perguntei: -  “Mas pra que tanto papel?”, e com o mesmo tratamento do Fernando, o Osvaldinho do DP foi falando: - “Mas você é analfabeto mesmo! Você vai ser contratado seu animal! Esses papeis são pra você preencher, pra você ser registrado...

Ahh, eu peguei toda aquela papelada, todo aquele monte de documentos, pois o DP era na mesma sala onde ficava o “Seu” Fernando e o Diretor-Presidente da Pan. Eu me virei pra ele (Fernando) disse: - “Ô Seu Fernando!" E ele usava um óculos daqueles baixados na ponta do nariz, ele só olhou pra mim, e eu disse: - “Eu não falei pro Sr. que se eu tivesse chance, seria contratado em definitivo? O Sr. estava enganado!” Ele abaixou mais o óculos e disse: - “Ô seu Jeca! Você tem 1 segundo pra sumir da minha frente, antes que eu mude de idéia, sua ‘anta’!

Quer dizer, eu estava mexendo justamente com a pessoa que tinha mandado me contratar.
 

05) Como surgiu a Fórmula 1 na sua carreira?

A Jovem Pan tinha José Silvério, Edemar Annuseck e José Carlos Guedes, os três narradores, e eu era o quarto narrador. Aí o “Seu Tuta”, em 1986 resolveu voltar a transmitir Fórmula 1. (Obs. As Transmissões de F1 obtiveram grande sucesso de audiência nos anos 70, com o comando do “Barão” Wilson Fittipaldi, pai do Emerson e do Wilsinho). E “Seu Tuta” me disse assim: - “Ô moleque... você já viu roda? Você já entrou num autódromo? Então você vai transmitir as 'Mil Milhas' (tradicional prova do calendário brasileiro de automobilismo), junto com o Cândido Garcia e o Cláudio Carsughi. Eles vão te ensinar alguma coisa!

Seu Tuta me perguntou justamente assim: - "Já entrou num autódromo?” E eu nunca tinha entrado num autódromo, muito menos transmitido uma corrida. Mesmo assim, fiz as “Mil Milhas” auxiliado pelo Carsughi e pelo Cândido Garcia. Enfim, essa foi a transmissão.

O primeiro GP de Fórmula 1 de 1986 foi em Jacarepaguá (RJ), e aconteceu uma coisa muito interessante. No sábado, a equipe da TV Globo fez no Jornal Nacional (JN) uma matéria com os locutores de Rádio. Então, na primeira prova de F-1 que eu transmitiria na vida, o repórter do JN perguntou: "Como você encerraria a prova amanhã?" Então falei: - "Aí vem Senna, Piquet... Senna, Piquet... pouco importa, o que importa é a dobradinha brasileira!” Após essa minha fala, entrou o Cid Moreira e mandou o tradicional “Boa Noite!” Me lembro que fui “tão largo”, que ganhou o Piquet e o Senna ficou em segundo. Bom... acabou realmente tendo essa grande coincidência, a Pan retomando as transmissões de F-1, e eu dei sorte demais nessa primeira corrida.

Na corrida seguinte dei mais sorte ainda. Dessa vez, todo mundo queria ir e aí falaram: - “Manda o moleque que narrou as 'Mil Milhas' e o GP Brasil”.
Era o GP da Espanha, em Jerez de La Frontera. A chegada desse GP, foi assim, “bico com bico” entre o Senna e o Nigel Mansell. Me lembro que a TV Globo demorou pra divulgar quem ganhou a corrida, devido essa disputa "bico com bico". Nessa transmissão eu estava com o Reali Jr., famoso correspondente na França para a Jovem Pan, e eu disse: - “Grande vitória de Ayrton!” Foi um pouco de instinto, um pouco de irresponsabilidade também, porque o resultado só foi comprovado no “Foto Chat”. No dia seguinte ao GP da Espanha, a Jovem Pan soltou um editorial sobre a credibilidade do Rádio, porque em 1986, só a Jovem Pan transmitia F1 pelo Rádio. Então só estavam lá na Espanha,  a TV Globo e a Rádio Jovem Pan. E no final do editorial soltavam meu final, falando da vitória do Ayrton Senna, e depois colocavam o final da Globo que dizia: - “Depois do intervalo voltamos para saber quem foi o vencedor do GP da Espanha”. Confesso que foi muita sorte mesmo!

Daí em diante, a direção da emissora decidiu me manter a frente das corridas, e eu fiquei de 1986 até 2000 fazendo todas as provas. Eu acho que a Fórmula 1 foi fundamental na minha vida profissional, porque também no meio dessas corridas eu transmitia muitos jogos lá da Europa.  Copa da Europa, Campeonato Italiano, e aí eu ganhei uma bagagem profissional neste período, imensa! Eu adquiri um “know-how” muito grande.
 

06) Em 1986, quem era o narrador da TV Globo?

Já era o Galvão Bueno.
 

07) Se por acaso naquela época, a direção da Rádio pedisse para você escolher entre narrar Fórmula 1 ou futebol, o que você escolheria?

Continuaria com as corridas. Porque no futebol eu tinha outros três narradores na minha frente, José Silvério, Edemar Annuseck e o José Carlos Guedes. Então, pra mim sobraria muito pouca coisa dentro do futebol. Optaria em continuar fazendo as corridas. Mas eu sempre fui um narrador de futebol... É que eu “encaixei” legal narrando às corridas de F-1.

E outra coisa. Acabei dando muita sorte também, porque foi numa época em que o Brasil ganhou 3 títulos com o Nelson Piquet e 3 títulos com o Ayrton Senna. Tive a felicidade de transmitir tudo isso. Então, era o momento da F-1 em que muitas corridas tinham uma importância imensa para o Brasil. Para se ter uma idéia, naquela época a repercussão às vezes de uma corrida, era tão grande quanto o jogo de futebol do domingo à tarde. E quando tinha vitória do Ayrton Senna, a repercussão era até maior. Se o jogo não fosse tão chamativo, no dia seguinte os jornais publicavam até 4 páginas falando da F1. Era uma coisa absurda o espaço que o automobilismo tinha.

A experiência que adquiri fora do País, conhecendo outros povos, outras culturas, convivendo com jornalistas do mundo inteiro, foi fundamental para o meu crescimento como jornalista. Agradeço demais essa oportunidade que tive.

Em 2000, foi minha última temporada. Foi o ano em que José Silvério saiu (para a Rádio Bandeirantes). Pedi pra direção da casa, se eu poderia ficar só com o futebol, e a direção concordou com meu pedido.
 

08) Quem eram seus grandes companheiros de viagens, nesse período de transmissões de Fórmula 1?

Flávio Gomes e Lívio Orichio foram os que mais viajaram comigo. Houve uma época em que eu viajava sozinho, mas eu sempre arrumava alguém fora do País pra me dar suporte.
 


 

09) Mas o Flávio Gomes foi mais recente, até porque no início ele era correspondente da Folha de S.Paulo, não é?

Isso. O Flávio Gomes começou comigo aqui na Pan. O primeiro “bom dia” que ele falou numa emissora de Rádio foi comigo. Ele era uma cara só de jornal, e indiquei ele aqui pra casa. O pessoal da direção gostou e o contratou.

Também esteve comigo lá fora, um correspondente de Paris chamado Álvaro Teixeira. Mas viajar mesmo, só o Flávio Gomes. Antes dele, eram sempre correspondentes que me davam suporte “lá fora”. E muitas vezes eu atuava nas transmissões como narrador e repórter.
 

10) Na Fórmula 1, quem te mostrou o “caminho das pedras”? Foi o Cláudio Carsughi?

Ahh..claro! O Carsughi foi realmente meu grande mestre. Ele e o Cândido Garcia. Duas pessoas a quem eu serei grato eternamente. Eles foram fundamentais, e didaticamente me ensinaram demais.

Eu sempre tive fora do País um respaldo de uma pessoa, a quem quero agradecer, que foi o Galvão Bueno. Em 1986, nas primeiras corridas que transmiti, eu fiquei imaginando: - “Pô, como é que esse cara (Galvão) vai me tratar”. Então eu falei pro Galvão: - “Cara, eu sei muito pouco sobre esse negócio”, e ele também me ajudou muito, principalmente como se relacionar e se portar no meio.

O Galvão sempre foi comigo um cara muito humilde e sou muito grato. Mas aqui dentro da Jovem Pan, o Cláudio Carsughi e o Cândido Garcia me ajudaram muito.
 

11) Já que estamos falando sobre o Galvão Bueno, fale sobre a história dele utilizar uma expressão sua, que é “Com a faca nos dentes”.

Essa frase “Faca nos dentes”, eu não lembro de ninguém ter usado antes. Eu usava essa frase desde 1986, e agora recentemente o Galvão passou a usar também. Ele gostou talvez da frase, e passou usar. Mas não tem problema nenhum. Para mim é privilégio que ele use.

Eu acho o Galvão um locutor extraordinário, ao contrário do que as pessoas falam e ficam discutindo sobre ele. Um cara que está há tanto tempo na Globo como titular, num departamento que movimenta milhões de dólares, é porque o cara é bom demais! Além disso, ele é versátil. Narra tudo!

Hoje, com a carência de empregos que se têm no meio, o cara tem que ser versátil. E na minha opinião, o locutor não pode narrar só futebol. Cada esporte tem sua técnica.

Eu narro futebol, narro Fórmula 1, narro vôlei, narro basquete, mas o importante é narrar pelo Rádio. Eu gosto do veículo “Rádio”. E este veículo é o melhor de todos. É indiscutivelmente o “principal veículo de comunicação do Planeta”. Por mais que surjam outros veículos, outras tecnologias, o Rádio continua imbatível. Quanto mais a tecnologia evolui, mas imediato se torna o Rádio. A tecnologia é uma grande aliada. O Rádio é imbatível. Ninguém consegue bater a velocidade do Rádio.
 

12) No ano 2000, você ficou entre 6 a 7 meses fora do ar. Na época, diziam apenas que você teve um “problema de saúde”, algo que nunca ficou claro. Poderia nos contar o que aconteceu?

Em 2000 eu tive uma “P.M.D.”, ou seja, uma Psicose Maníaco Depressiva, que é na verdade uma depressão em alto grau. E a P.M.D. pode ocorrer com qualquer um. Ela é uma doença do mundo moderno.

Um cético dentro da medicina diria que a doença é um desequilíbrio químico do organismo que atinge o cérebro. Como eu não sou cético, me tratei também com um médico que não é cético, Dr. Sérgio Felipe, que foi professor da USP. Aliás, um fenômeno na medicina. Ele é pesquisador, psiquiatra e neuro-cientista. O Dr. Sérgio Felipe estuda uma glândula dentro do nosso cérebro chamada glândula Pineal. Então, além do desequilíbrio químico, tive uma desarmonia espiritual.

Me tratei quimicamente com o Dr. Sérgio, e espiritualmente me tratei com muitas orações, com fé, e sem direcionar para nenhum segmento religioso.

Mas eu tenho uma coisa importante a dizer. Eu fiquei entre 6 a 7 meses fora do ar, e a Jovem Pan não deixou de me pagar 1 centavo. Poderia ter me colocado no INSS, e que nada! Me pagaram religiosamente, e tudo o que eu precisava para o tratamento eles adiantavam, ajudavam, e isso eu devo demais. É uma dívida eterna que eu tenho com o Antonio Augusto Amaral de Carvalho (Seu Tuta). Me lembro que quando cheguei na Rádio depois de 7 meses, logo na segunda, fui colocado como titular de esportes da Pan. Foi inacreditável.

Perguntei para o "Tuta": - “E o José Silvério?”, e ele me disse: -“Ele saiu da Rádio. A partir de hoje é você quem vai ser o titular”.

Com isso, quero dizer que eu tenho obrigação de corresponder a esse crédito que foi me dado pelo "Seu Tuta" e toda equipe da Rádio Jovem Pan. Foi um período muito difícil, não foi coisa simples. Eu nunca tinha tido nada, nem unha encravada, tinha saúde de ferro! De repente entrei nisto aí. Aliás, você pode encontrar grandes empresários com síndrome do pânico, com P.M.D., com depressões em alto grau. Então, eu aprendi a diminuir a intensidade de coisas que eu fazia na minha vida, aprendi a dosar mais as minhas coisas, e aprendi a me cuidar espiritualmente cada vez mais. Tudo isso me trouxe um equilíbrio que melhorou tudo em minha vida profissional, familiar, financeira e em todos os aspectos.
 

13) Voltando um pouco no tempo. Foi nos anos 90 que você passou a ser o segundo narrador? Como foi isso?

Me tornei segundo narrador em 1990, ano da Copa da Itália. O Edemar Annuseck havia saído, mais o José Carlos Guedes ainda estava na Jovem Pan. Quer dizer, nessa época eu dei um salto de quarto narrador para segundo narrador. Foi incrível tudo o que aconteceu.

Sou uma pessoa de muita fé, pois a vida não é só o que os nossos olhos enxergam. Eu tenho uma filosofia Kardecista de viver. Acredito que eu tive muita ajuda no período em que fiquei doente, porque quando voltei, eu senti que melhorei em tudo! Profissionalmente hoje sou outra pessoa, muito melhor do que eu era! Dentro de casa, e em todos os aspectos.

Eu acho que as vezes, você precisa tomar umas “cacetadas” da vida pois elas são absolutamente indispensáveis para o crescimento. Foi o que aconteceu comigo. Deus falou: - “Você está num ritmo muito acelerado, diminui ai”... E foi isso o que aconteceu desde 2000.

Na próxima Copa do Mundo em 2010, eu estarei completando 10 anos como titular da Jovem Pan. Isso é fantástico para mim, porque foi um sonho de criança. Quando eu era o quarto narrador aqui na Pan, eu tinha convicção de que um dia seria titular o titular deste microfone, que é a Rádio que eu amo, a Rádio que eu tenho paixão, a Rádio que eu ouvia desde menino e eu tinha o sonho mesmo de ser o titular da Pan. E pra isso, nunca precisei dar “rasteira” em ninguém, passar a perna, até porque aqui não se faz isso. Aqui quem manda é um só, quem dita as regras da casa é o Sr. Antonio Augusto Amaral de Carvalho, o Tuta. Então, o profissional que trabalha na Pan sabe que se for competente, a chance de crescer é grande porque aqui não é uma casa que tem “fofoquinha”, “puxar tapete”, porque aqui quem manda é o dono e é ele quem decide tudo.

O dono faz “escala”, é o dono quem escolhe o jogo que a Rádio vai transmitir. Ele simplesmente era como o “Boni” (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, ex-TV Globo), na TV Record na década de 1960. Foi ele (Tuta) que criou os Grandes Festivais da Record, a Família Trapo...

A Jovem Pan teve sempre grandes profissionais, diretores de jornalismo, repórteres... Mas a cabeça pensante da Jovem Pan é o “Seu Tuta”! E é um cara admirável, pra mim um espelho. Uma pessoa com 77 anos, que fica na Rádio entre 10 e 12 horas por dia, ouve a Rádio 24 horas por dia, com a vitalidade profissional que ele tem, é um espelho a ser seguido.

O meu grande ídolo na comunicação é o “Tuta”. Porque eu acho que ele é um espelho pra todo e qualquer profissional de comunicação. Um vencedor, financeiramente mais do que realizado, e mesmo assim continua trabalhando. Ele chega na Pan as 9 horas da manhã e vai embora as 7 horas da noite. Só vai até a casa dele para almoçar e volta. E ainda com 77 anos teve a disposição para criar a “Jovem Pan On Line”, que é o Rádio com imagem. O Tuta cuida pessoalmente do site “Jovem Pan On Line”.

Eu peço a Deus para quando tiver 77 anos, ter a vitalidade e a lucidez que o "Seu Tuta" tem para as coisas, para “enxergar além”... E não estou dizendo para “puxar o saco”! Faço questão de dizer pois isso é fato.

Eu trabalho aqui e convivo o diariamente com ele há 27 anos. Isso que estou dizendo é uma “constatação”. E na Pan, não se tem necessidade de “puxar o saco”, porque aqui as coisas não funcionam assim.
 

14) Sua ausência no ano 2000 foi muito sentida. Deixou “buraco” na equipe esportiva. E uma lembrança muito marcante para os ouvintes, foi quando você entrou narrando “do nada”, nos instantes finais do GP da Alemanha daquele ano. Foi a primeira vitória do Rubens Barrichello. O que realmente aconteceu naquele dia?

O que aconteceu naquele dia não tem explicação lógica. Aquilo lá foi coisa de Deus. O Vander Luiz estava narrando a prova do Estúdio (off tube). Ele não estava na Alemanha não, e eu estava em casa, ainda dentro do meu problema.

O detalhe é que naquele dia simplesmente “caiu” a transmissão do estúdio na última volta. Foi uma coisa totalmente inacreditável, até hoje ninguém entendeu. Normalmente a transmissão dentro do estúdio não cai. Foi quando o Artur Figueroa (Central Técnica da Jovem Pan) teve uma “inspiração” e me ligou dizendo: - “Nilson , você está vendo a corrida?” Eu ainda sob efeito de medicamento (meio aéreo) respondi: - “Eu tooouuu”... Foi então que o Artur Figueroa disparou: - "Entra aí e narra, você esta no ar a partir de agora!" E eu narrei.

Foi a partir daquele dia, daquele instante que eu percebi que tinha condições de retomar minha vida.

Perceba. Foi uma coisa absolutamente inexplicável a inspiração do Artur Figueroa, cair o som do estúdio - que acontece uma vez em cada um milhão - , me ligar para que eu narrasse o final do GP. E tudo aconteceu muito rápido, porque o Rádio é muito rápido. Eu entrei e narrei.

Fioquei sabendo que todos na Rádio ficaram emocionados. Os ouvintes ficaram emocionados. O que chegou de e-mails e telegramas no dia seguinte foi um absurdo. Aquilo foi o grande “start” para minha volta.

Ninguém explica o que realmente aconteceu neste dia. Por isso, cada vez mais eu acredito “naquilo em que os olhos não podem enxergar”.
 

15) Como foi trabalhar com o José Silvério?

Eu não tenho nenhuma reclamação, muito pelo contrário. O José Silvério sempre foi comigo um cara muito honesto, muito leal. Sempre foi um grande parceiro. Ele sempre procurou me ajudar, sempre me orientou também.

O Silvério tem 16 anos a mais de idade do que eu. Hoje eu tenho meu estilo próprio de transmissão, mas na época eu criei um estilo em que eu me espelhava muito no trabalho dele.

Eu sempre achei o Silvério um locutor extremamente técnico, e ainda mais hoje que a televisão está mostrando tudo, e você precisa tecnicamente narrar futebol com precisão. E uma Rádio como a Pan, onde nosso público é exigente, você não pode narrar futebol de qualquer maneira, tem que narrar com absoluta fidelidade. Então eu fui pegando um pouco do Silvério, um pouco do Osmar Santos, um pouco do Haroldo Fernandes do Rio de Janeiro – que eu ouvia na época da Super Rádio Tupi -, um pouco do Fiori Gigliotti, e aí eu fui formando meu próprio estilo, mas eu tinha o Silvério na época como um espelho.

Hoje eu já acho que tenho um estilo de transmissão que é bem diferente do José Silvério. E aí quando as pessoas falam que meu filho Fausto César (da Rádio Capital AM - 1.040 kHz - São Paulo/SP) é o novo “Nilsinho”, é mais normal ainda. Primeiro pela questão genética, e depois por estar se espelhando no pai. E eu tenho certeza que daqui um tempo ele cria o próprio estilo dele, como aconteceu comigo.
 

16) Foi muito “traumática” para a Jovem Pan a saída do Milton Neves da equipe? Era esperada a saída?

A equipe encarou com absoluta naturalidade. Não sei se era esperada ou não, porque não sei de “bastidores”, mas foi uma coisa natural. Eu acho que acabou o ciclo dele.

O Milton foi um cara muito importante pra Pan, mas acabou o ciclo, e a Pan historicamente é assim. Acabou o ciclo do José Silvério, veio o ciclo do Nilson. Daqui um tempo vai acabar o ciclo do Nilson – tomara que demore muitos anos ainda - , e é assim. A Jovem Pan é uma emissora tão forte, tão grande que ela se auto recompõe, mesmo perdendo um grande profissional.

A Pan vai formando os profissionais aqui dentro. O segredo da Jovem Pan é a formação de profissionais, pois ela é a grande escola do Rádio brasileiro.
 

17) Como você escolhe seus “bordões”, e as frases de “efeito” que você utiliza nas transmissões?

Não tem receita para isso. É coisa que sai de forma natural e ai você percebe se a coisa “emplacou” ou não, quando você chega no elevador e o cara repete seu bordão. Ou, quando você está na porta do prédio, e outro vem e repete seu bordão. Um outro na rua te reconhece, e ai repete seu bordão. Ai você diz “emplacou”!

Na Fórmula 1 eu usava aquele “Pra você, pra mais ninguém...” e pegou pra “caramba”, e no futebol eu tenho meus bordões. Acho que se você pensar muito pra fazer ou que vai falar num bordão, acaba não saindo. Eu acho que quando você está transmitindo, tem alguma ajuda. Na verdade é uma grande arte transmitir futebol, semelhante a um ator num palco. Você percebe fisionomicamente que ocorre uma transformação. Se você ficar alí filmando um locutor durante a transmissão inteira, percebe que fisionomicamente tem uma transformação.

Eu não acredito só na Terra, eu acredito em energias. Eu acredito demais em ajuda e em auxílio. E não tenho nenhum medo de falar isso não. Eu acredito que quanto mais merecimento você tem, mais ajuda de Deus você recebe! E eu ouço minhas transmissões depois e sou muito crítico. Eu odeio errar! E tem mais, o Seu Antonio Augusto Amaral de Carvalho (Tuta), o que ele passa de orientação a todos nós da Rádio, é muito legal.

Tem coisas que eu corrijo através de orientação do “Seu Tuta”. Pra nós, muitas vezes não é perceptível, mas para ele que tem um ouvido treinado, é bem perceptível. Ai ele chega assim no corredor e diz: - “Ô camarada, você viu que você falou ‘isto aqui” ontem? Procure falar diferente ‘tal coisa’.

Pronto! Mas voltando, eu sou critico demais comigo. Principalmente quando eu erro um lance, quando eu erro o jogador que fez o gol - e é normal -, pois ninguém é infalível. Todos nós falhamos, e todos estamos sujeitos ao erro, principalmente o locutor técnico, “que narra em cima” da jogada.
 

19) O que você já fez em televisão, fora as transmissões de Fórmula 3000, que por sinal era transmitida aqui na extinta Jovem Pan TV (canal 16 UHF)?

Eu narrei na Jovem Pan TV automobilismo, basquete... Hoje eu tenho dois programas de TV em Sorocaba (interior paulista). Um é na TVCOM (Canal 7 da NET de Sorocaba), que por sinal é um programa muito engraçado chamado “Bate Papo”. Eu apresento com a minha “ex-norinha” Amanda Belo, que trabalha também na Rádio Metropolitana FM (98,5 MHz São Paulo/SP), no Programa “Chupim”, onde ela faz a “Barbie”. Ela é muito engraçada. Ela será uma atriz fantástica! Ela está fazendo curso na escola do Wolf Maia (ator e diretor da Rede Globo).

Nesse programa semanal, nós apresentamos quatro blocos de 15 minutos, falando das novelas, etc. A Amanda é “engraçadíssima”. É uma Sabrina Sato melhorada. Uma “Diarista” (referência ao seriado da TV Globo) melhorada, ela é uma mistura de tudo isso. O programa vai ao ar uma vez inédito na semana, com duas repetições.

O outro programa, apresento com meu filho Fernando Favara, que está “enveredando” para este meu lado também. O programa chama “Estrela do Esporte”, e é exibido no mesmo canal. Tem uma hora de duração, e já participaram Muricy Ramalho, Vanderlei Luxemburgo, Rogério Ceni, Marcos (do Palmeiras). Em uma hora de programa, a gente fala de “tudo” com o entrevistado.

Além desses meus projetos na televisão, eu fiquei durante 12 anos em Sorocaba, na Jovem Pan Sorocaba – que é uma afiliada, e não tem a mesma programação de São Paulo -, apresentando o “Jornal da Manhã” de Sorocaba. Essa foi uma das razões que eu quis cursar a faculdade de Direito, porque eu tinha que falar de economia, de política, falava de tudo. Eu entrevistava ministros, senadores - da mesma maneira que fazem aqui em São Paulo ao vivo-, os entrevistados falavam em Sorocaba também.

Isso me deu também um "know-how" profissional muito interessante, porque eu não fiquei só no futebol e no esporte. Isso amplia a sua visão jornalística.
 

20) Como última pergunta. Qual a sua opinião sobre as emissoras FM que transmitem futebo? Qual sua visão sobre essa crescente tendência?

Eu acho ótimo. Quanto mais Rádios, melhor! Independente de ser AM ou FM, acho excelente.

A Jovem Pan já está transmitindo partidas pelo FM (100,9 MHz - São Paulo/SP) aos domingos, porque você estando em FM consegue ampliar seu público ouvinte. Acaba trazendo mais garotos pelo FM. Está errado quem acha que o ouvinte de futebol no Rádio é um público mais velho. Coisa nenhuma! Eu tenho MSN, Orkut, e estou em contato com uma porção de garotos que entram no MSN e pedem pra eu colocar minhas escalas (dos jogos). Garotos de 15, 16, 17, 18 anos de idade. Essa coisa de gostar de Rádio é eterno. Não tem essa de o público jovem não estar acostumado a ouvir futebol no Rádio. É pura mentira. Eles ouvem também! E acho muito legal que a Jovem Pan e as outras emissoras também abram suas FMs para transmitir futebol. Quanto mais mercado, melhor para todo mundo.

Aos leitores do “Bastidores do Rádio”, quero dizer que sou um “habitué” de navegação em internet e estou sempre acessando o “Bastidores do Rádio”. Fiquei muito feliz quando meu filho Fausto César foi um dos destaques no site, e quero dizer o seguinte: - "O Fausto César será um dos maiores narradores do Rádio esportivo do Brasil!"

Ele tem 20 anos de idade, e eu quando tinha 20 anos não narrava o que ele narra. E ele está ao lado do Dalmo Pessoa, do Bruno Filho, do Ivo Morganti, enfim, de gente experiente! Pode escrever, ela vai ser um dos maiores talentos do Rádio brasileiro. Esse menino tem uma vocação incrível. Desde 13 ou 14 anos de idade, ele já narrava no banheiro, na rua, futebol de botão, e narrar futebol é dom, é vocação! E é normal que ele tenha o pai como espelho. E aqueles que não acreditaram no Fausto vão se arrepender muito. Aliás, já estão se arrependendo.

Eu não estou exagerando, eu tenho convicção. O potencial de voz do Fausto é impressionante, o ritmo de transmissão é impressionante. E ele começou a narrar aqui no Rádio de São Paulo, quer dizer, ele não tem a escola do Rádio do interior. Acho que ele não foi tão bem aproveitado na primeira emissora que passou, mas tudo bem. Foi bom porque agora ele está numa emissora melhor, com profissionais experientes que o auxiliam de verdade. Estão formando um dos maiores narradores da história do Rádio brasileiro.

Um abraço a todos.
Nilson César - Rádio Jovem Pan AM (620 kHz - São Paulo/SP)