FLAVIO GOMES


Entrevista realizada por Emilcio Rogério Zuliani, em janeiro de 2011, na sede da agência Warm Up, na Av. Paulista, em São Paulo.
FOTOS: Álvaro Aiose Junior.



Flavio Magliari Gomes é paulistano, nascido em 15 de julho de 1964. Torcedor fanático da Portuguesa de Desportos, tendo inclusive assumido a presidência da Torcida Organizada “Leões da Fabulosa”, em sua juventude.

Flavio, que é radialista por formação - e jornalista por opção -, costuma auto definir-se como “multimídia de araque”, conforme sua própria definição: “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.

Flavio Gomes hoje atua no Rádio pela Eldorado/ESPN, na TV pelos canais ESPN (ESPN Brasil e ESPN), escreve sua coluna sobre Fórmula 1 para aproximadamente 15 jornais, possui o site mais completo sobre automobilismo do País (o site Grande Prêmio, do Portal IG), tem um dos Blogs mais visitados do Brasil (no mesmo Portal IG), é proprietário de uma agência que trata exclusivamente de automobilismo (Agência Warm Up - onde foi realizada esta entrevista), além de escrever para o anuário “Auto Motor Esporte”, editado por Reginaldo Leme (da TV Globo).

Como se todas essas atividades não fossem suficientes, Flavio Gomes ainda encontra tempo para pilotar (e se auto define como “dublê de piloto”), atualmente Flavio Gomes dirige um Lada 2105 nas competições que participa, mas até 2008 utilizava uma DKW Vemag. É colecionador de carros (possui mais de 20 veículos em sua coleção), e além da paixão declarada por DKWs e Ladas, ainda é apaixonado por Kombis.

Mas para tratar basicamente do assunto “Rádio”, convidamos o leitor do site Bastidores do Rádio a acompanhar essa interessante entrevista. Com vocês, Flavio Gomes:

 

01) Flavio, seu início no jornalismo (impresso), foi em 1982.Você começou no (extinto) Popular da Tarde. Como foi que surgiu essa paixão pelo jornalismo? Foi precoce?

Bom, antes de mais nada, é bom que se diga que minha formação é de radialista mesmo. Eu me formei em Rádio e TV, não me formei em jornalismo. Me formei em Rádio e TV na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), e a minha opção por exercer o jornalismo, foi uma opção muito precoce.

Eu desde criança, 8, 9, 10 anos de idade, a minha paixão era escrever e passar a informação para os outros. Acho que a gente quando criança faz muito disso, a gente fala muito, conversa muito, tudo é  novidade. A criança é curiosa por natureza e o jornalista é curioso por natureza. Então, desde muito criança eu sempre quis isso, eu sempre quis trabalhar com esporte, com futebol que era minha grande paixão e eu, portanto, quando me formei, quando terminei o colegial e fui para a faculdade eu não tinha dúvida nenhuma do que eu queria fazer na vida.

Aí eu comecei no (extinto) Jornal Popular da Tarde, como colunista de “torcida organizada”. O jornal tinha cinco colunas de torcidas organizadas, as maiores dos clubes grandes de São Paulo, e como eu estava cursando a faculdade – não fazendo jornalismo, mas enfim, fazendo comunicação, como se chamava isso na época -, e ninguém na minha torcida (Flavio Gomes foi Presidente da Torcida “Leões da Fabulosa”, da Portuguesa de Desportos) tinha esse tipo de habilidade, ou formação, e era eu quem fazia a “coluninha” do jornal.

Isso foi o meu primeiro contato com a vida profissional, com redação. Eu ia ao jornal, fazia questão de ir ao jornal lá na (Rua) Major Quedinho, ia conhecer os repórteres, os setoristas da Portuguesa, os colunistas: o Antonio Guzman, o Lucas Neto, o Dalmo Pessoa – pessoal da velhíssima guarda, que eram pessoas que eu admirava, que eu via na televisão, que eu lia -, e foi assim que eu comecei a minha carreira. Mas o meu primeiro emprego remunerado foi em Rádio. E por isso a minha ligação com o Rádio, o veículo Rádio, ela é muito forte. Muito forte.

Eu costumo dizer até que de tudo que faço, e que não é pouco, o que eu mais gosto de fazer de verdade é “Rádio”. O Rádio é uma coisa que esta na minha vida desde criança, e eu tenho até hoje, o meu primeiro radinho, que não é nem a pilha, é a bateria – aquela bateria quadradinha -, um RCA, que eu escutava a noite quando eu morava no Rio de Janeiro. Quando eu ganhei esse rádio eu morava no Rio, e tinha 7, 8 anos de idade, eu escutava os jogos pela Rádio Globo, com o José Carlos Araújo, com aquele fone de ouvido que nós chamávamos de “egoísta”, que era um “foninho” que não era para as duas orelhas... então Rádio para mim faz parte da minha vida desde muito criança – como ouvinte -, e desde o começo da minha vida profissional, isso em 1984, quando eu comecei a trabalhar com Rádio.


02) O Nilson César (titular de esportes da Jovem Pan) quando concedeu uma entrevista aqui para o site Bastidores do Radio, citou que o primeiro “bom dia” que o Flavio Gomes deu no Rádio, foi através do Nilson César, na Jovem Pan. Isso é verdade? Porque consultando seu currículo, você tem passagens pelas Rádios Cultura e USP.

Não, não é verdade. Isso é gozado, porque eu falo isso com o maior bom humor, e o maior carinho possível, assim: todo mundo que trabalha na Jovem Pan, todo mundo que passou pela Jovem Pan – e eu trabalhei na Jovem Pan -, acha que a Jovem Pan é o centro do universo. Que não existem outras Rádios, e que por isso se você não falou na Jovem Pan ainda, você não falou no Rádio (risos).

Estou falando isso em tom de brincadeira, porque o Nilson foi muito importante na minha chegada a Jovem Pan, mas a minha carreira e as minhas participações no Rádio são muito anteriores a isso. Eu fui para a Pan em 1994, 10 anos depois de eu ter começado minha carreira na Rádio Cultura AM aqui de São Paulo (1.200 kHz), quando na verdade eu era funcionário da S.B.P.C – Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Essa entidade que já teve uma importância maior, eu acho, no Brasil – principalmente nos anos da ditadura -, ela (S.B.P.C.) no final de 1984, estava começando um programa-projeto de divulgação científica. E aí, foi contratado um cara da BBC, um radialista, chamado João Bosco, que estava formando uma equipe aqui para fazer programas científicos de Rádio. E um professor meu da faculdade (Gregório Bacic), me indicou para esse João Bosco Jardim de Almeida – que sumiu... preciso achá-lo – e eu fui ser repórter desse programa que chamava-se “Encontro com a Ciência”.

Era um programa semanal na Rádio Cultura AM, de uma hora de duração, gravado nos estúdios da Rádio USP (FM 93,7 MHz). Eu fiz isso durante 2 anos, como repórter, editor, entrevistando todo o tipo de cientista que você possa imaginar, numa relação muito íntima com o mundo acadêmico, com a Universidade, e foi um período muito rico da minha vida. Até porque, eu não tenho formação cientifica, e como repórter para tratar desses assuntos, você precisa estudar muito, você precisa ler muito, pesquisar muito. E não existia internet nessa época. Então foi muito bacana, foram 2 anos, eu tenho até uma pastinha com todas as pessoas que eu entrevistei nesses 2 anos. São mais de 150 entrevistas, edição de fitas de gravador de rolo na gilete, que é o que a gente fazia... o trabalho com uma equipe muito boa, que o Nivaldo Freixeda, Ana Natividade, O Chico Cocca – técnico de som e que trabalha na ECA (Escola de Comunicação e Artes da USP) até hoje, Glória Malavoglia, um pessoal muito bacana, e foram 2 anos fazendo isso.

E no final, quando eu estava saindo da S.B.P.C. para ir para a Folha de S.Paulo, o programa passou a ser transmitido pela Rádio USP FM. E a curiosidade era que quem gravou a abertura do programa – que mudou de nome, e passou a se chamar “Tome Ciência” -, a abertura e a vinheta do programa foi gravada pelo William Bonner. Então eu brinco que trabalhei com o William Bonner. E trabalhei mesmo, de fato, durante pouquíssimos meses, que foi o finalzinho do meu período na S.B.P.C., quando o programa saiu da Rádio Cultura AM, para ser transmitido pela Rádio USP FM... e nós mudamos o nome, mudamos algumas vinhetas, e o Bonner – que era estudante na época da ECA -, com aquele vozeirão todo, era ele quem gravava as nossas vinhetas.

03) Então, em termos de Rádio você passou pela Cultura AM, USP FM, e entrou na Jovem Pan. Na Pan, você entrou direto como correspondente de Fórmula 1?

Na verdade eu fui para Folha em 1986, fiquei 1 ano como repórter e redator de “Educação e Ciência”, porque eu fui para lá graças a esse meu currículo nessa área. No comecinho de 1988 eu fui trabalhar no “Esporte”, eu migrei para o “Esporte” que era o que eu queria fazer. Cheguei a sair da Folha durante 1 mês para trabalhar na (revista) Placar – que era o meu sonho de vida -, depois voltei para o Jornal. Porque a Placar estava mudando muito de “caráter”, ia virar uma revista de “games”, e ai eu voltei para a Folha. E em 1994, quando começou a temporada da Fórmula 1, - eu já era repórter de Fórmula 1 da Folha -, já tinha passado por pauteiro, editor-adjunto, editor e depois virei repórter especial para fazer Fórmula 1.

Em 1994 o Nilson César me convidou para comentar as corridas pela Jovem Pan. Para comentar. Por que o que acontecia quase sempre com as Rádios que faziam Fórmula 1... muitas vezes as Rádios usavam como comentaristas, alguns repórteres de jornal que faziam as corridas, que viajavam com as corridas. Isso de certa forma reduzia os custos das Rádios, porque não precisavam mandar um comentarista, e as vezes nem tinham... e também enriqueciam as transmissões com vozes novas, e muitas vezes com pessoas mais preparadas até, porque a maioria dos comentaristas de Rádio, estão no Rádio para fazer futebol, e não para fazer Fórmula 1.

É difícil uma Rádio contratar um cara só para fazer Fórmula 1. Então eu já tinha feito alguns comentários como convidado na antiga Rádio Excelsior (atual CBN 780 kHz), e quem narrava era o Luís Roberto de Múcio (atual narrador da TV Globo), e as vezes eu participava das transmissões, mais “meio que na farra”, como repórter da Folha mesmo. Depois em 1994 a Pan me contratou e foi uma coisa meio fixa, porque eu ganhava cachê, e durante as transmissões eu participava como comentarista.

O Cláudio Carsughi comentava daqui, e eu comentava do autódromo. Então eu viajava, o Nilson viajava também, e eu passei a ser comentarista. E esse meu trabalho com a Jovem Pan começou em janeiro de 1994, quando o (Ayrton) Senna fez o primeiro teste dele na Williams, e que fui cobrir, lá em Portugal. E aí, a Pan não tinha mandado ninguém, e eu acertei com a Pan de fazer os boletins, e tudo mais, e aí o pessoal gostou. Para mim era muito fácil, porque eu sempre fui ouvinte da Jovem Pan, então a linguagem não era nenhum segredo para mim. E eu fiz essa cobertura, esses testes para a Rádio, e depois passei também a ser comentarista, e logo depois eu saí da Folha, em maio, logo depois do Senna morrer. E a Pan continuou bancando as minhas viagens, naquele ano de 94, como “free-lancer” – então eu era só comentarista, e fazia reportagens também.

Em 1995 eu já tinha minha empresa montada (Agência Warm Up), e eu continuei viajando pela Pan também como comentarista, até que em 1996 a Jovem Pan me contratou. Aí eu passei a ser funcionário da Jovem Pan, como repórter e comentarista de Fórmula 1 e apresentador do Jornal “Hora da Verdade”. A Pan me contratou na verdade para ser apresentador do “Hora da Verdade”, um trabalho que eu fiz de 1996 até sair da Rádio, em 11 de setembro de 2001, no dia dos atentados (as torres gêmeas, em Nova Iorque). E aí nesse período, quando eu viajava, o Chico Falcão apresentava o “Hora da Verdade”, eu cheguei a dividir a apresentação – porque eu era âncora – com ele e com a Madeleine Lacsko também... Os locutores praticamente sempre foram o Ciro César – que morreu recentemente – e o Franco Neto, e era muito legal, porque eu tinha a minha empresa que era uma agência de notícias (no mesmo Edifício da Jovem Pan), que fazia a cobertura de Fórmula 1 para jornais, praticamente do Brasil inteiro – cheguei a trabalhar com 55 jornais -, eu fazia as corridas pela Jovem Pan também, como comentarista e repórter, e quando eu estava no Brasil eu apresentava o “Hora da Verdade”.

Era uma vida “meio louca”, mas muito bacana. E eu gostei muito desse período de âncora também, porque, eu saía um pouco desse mundo só do automobilismo. Era a apresentação de um jornal, de um jornal importante da casa... e foi bem bacana.


04) Em 1998, você cobriu a Copa do Mundo na França também?

Não, não cobri a Copa do Mundo. Aliás, sobre a Jovem Pan deixe-me dizer mais uma coisinha: em 1996 também, nós começamos um programa também na Rádio, sobre automobilismo, todos os sábados, chamado “Fórmula Jovem Pan”, que está no ar até hoje. Mas em 1998, eu estava durante o período da Copa do Mundo, cobrindo corridas na França e na Inglaterra. Então eu passei por lá, fui conhecer o Centro de Imprensa, mas não trabalhei na cobertura não.


05) Então na Jovem Pan, você fez o "Fórmula Jovem Pan" – onde foi um dos criadores -, o "Hora da Verdade", além de da participação nas transmissões de Fórmula 1.

Então, como eu era âncora do time de apresentadores também da Rádio, eu cheguei a transmitir três ou quatro carnavais, cheguei a apresentar o “Jornal da Manhã” – como substituto, era uma coisa meio avulsa -, e isso. Era bastante (risos).

06) Quais foram os motivos para sua saída da Jovem Pan? Eu me lembro que sequer você participou do último GP da temporada de 2001.

Eu adorei trabalhar na Jovem Pan, tenho uma profunda admiração pela Rádio, mas eu acho que a Jovem Pan, em muitos momentos, ela por ser uma emissora muito conservadora - e a sua direção é muito conservadora -, ela tem algumas atitudes que são inaceitáveis, quando a gente observa a maneira de administrar “o negócio” Rádio hoje.

A gestão da Jovem Pan é muito personalista. O “seu Tuta” (Antonio Augusto Amaral de Carvalho, proprietário da emissora) para se ter uma idéia, na época em que eu trabalhava lá na Jovem Pan – o “seu Tuta” que eu considero uma pessoa brilhante, embora não concorde com muitos procedimentos de gestão dele, para se ter uma idéia, para se colocar um adesivo da Jovem Pan num gravador, você tinha que ir a sala do “seu Tuta”, e era ele quem colava o adesivo no gravador. Era mais ou menos o equivalente a você precisar de uma “lauda” na Folha de S.Paulo, e ter que ir a sala do “seu Frias” para pedir, o que era uma coisa absolutamente ridícula.

Então quer dizer, esse controle muito pessoal de tudo, de pilha, - até pilha... é uma coisa que não funciona. E então eu acho que a Pan, ela vive hoje do seu grande nome, ainda faz coisas muito boas, mas é uma Rádio que derivou muito perigosamente, na minha visão, para o conservadorismo – editorial e de gestão. Eu não sei até quando isso vai sobreviver.

E no meu caso na Jovem Pan foi muito simples, em mais ou menos agosto de 2001, aliás, no ano de 2001, eu já estava começando a dividir a apresentação do “Hora da Verdade” com outros apresentadores, porque alguns personagens da política paulista se queixavam a direção da Jovem Pan, da minha conduta, do que eu falava, e de alguns comentários que eu fazia. Então o meu clima junto a direção da Rádio, ele foi se deteriorando um pouco, porque eu sempre fui muito “bocudo” – não que eu não aceite ordens, evidente que eu aceito ordens, eu não sou o dono da Rádio, mas eu nunca aceitei ordens que não fazem sentido.

Nunca aceitei nenhum tipo de interferência na minha conduta, porque eu sei que a minha conduta não era prejudicial a Rádio, e tinha como favorecido e beneficiário, única e exclusivamente aquele que paga o meu salário, que é o ouvinte. E eu contestava algumas determinações. Contestava mesmo. Aí, em 2001, no dia 10 de setembro, eu estava na rua e recebi um telefonema do José Pereira, que é o Diretor de Jornalismo da Rádio Jovem Pan, e ele dizia que queria conversar comigo – o que era uma coisa muito rara. E quando eu vim conversar com ele, o José Pereira me disse que a Rádio tinha avaliado que eu estava ganhando muito, para fazer só Formula 1. Aí eu disse para ele que eu não fazia só Formula 1, e que se eu estava sendo afastado do “Hora da Verdade”, era porque a Rádio (Jovem Pan) estava me tirando, pois eu estava a disposição para fazer qualquer outra coisa. E aí me propuseram terminar a temporada, me demitir, e me recontratar no ano seguinte, só para fazer Fórmula 1, e para ganhar menos. E eu disse que isso eu não aceitava, de jeito nenhum, até porque de 1997 a 2001 – durante 4 anos -, quem conseguiu viabilizar financeiramente a cobertura de Fórmula 1 na Jovem Pan, fui eu... Com passagens, com verbas, negociando até valores de direitos junto a FIA. E disse: “Não, eu não vou fazer isso!

Isso foi no dia 10 de setembro, eu disse então que ficaria até o final daquele mês, já tinha passagens compradas, e já estava tudo direitinho. A última corrida do mês era no dia 30, eu acho, era em Indianápolis. Então eu combinei que ficaria até o final do mês, faço Indianápolis, a gente “fecha” o mês, e vocês me demitem. Me demitem e paciência. E foi o que aconteceu! Aí eu saí da Pan, e no ano seguinte eu fui para a Bandeirantes.


07) Você tem ainda vários amigos na Jovem Pan?

Tenho!! Eu saí “brigado” da Folha, com “um monte” de amigos na Folha. Saí “brigado” da Pan, com uma porção de amigos na Jovem Pan. Agora, eu sei que tem gente na Jovem Pan que não gosta de mim, especialmente o “seu Tuta”, o que é uma pena! Porque o “seu Tuta” tem uma visão também de “mundo” e da profissão, que demoniza qualquer profissional que largue a Jovem Pan, que abra mão da Jovem Pan. Porque – eu entendo isso também, são mais de meio século a frente de uma Rádio, de uma empresa familiar – então sair da Jovem Pan é quase uma ofensa, para o “seu Tuta”.

No livro dele, por exemplo, ele faz algumas rapidíssimas referencias a mim, que são absolutamente fantasiosas. Ele diz, por exemplo, no livro, que eu era louco para trabalhar em televisão, que eu vivia dizendo para ele que queria trabalhar em televisão, e que um dia ele chegou para mim e disse: “Vai Flavio, vai trabalhar em televisão”. O que também não é verdade, porque quando eu saí da Pan, eu não fui trabalhar em televisão, e eu não sou louco por televisão. E nunca falei com ele sobre televisão. Sei lá, talvez ele esteja confundindo as coisas. Mas mesmo assim, eu sou muito grato a Jovem Pan, foi um período de oito anos muito feliz, eu adorei, sempre gostei muito da Jovem Pan, continuo escutando a Jovem Pan eventualmente... e como eu disse, eu tenho uma profunda admiração pela história da Rádio.
 
Eu só espero que a Rádio redesenhe a sua história, a partir de agora. Eu acho que a Rádio está ficando muito para trás, no que diz respeito a modernização mesmo de gestão, de programas, e tudo mais.


08) E aí você foi para a Bandeirantes?

Então, eu fui trabalhar na Bandeirantes como parte de “esquema terceirizado”, que é o esquema de Fórmula 1, que é comandado pelo Odinei Edson até hoje.

09) E esse “namoro” para entrar na Bandeirantes foi rápido? Você logo que saiu da Pan, já teve um contato bastante rápido?

Foi. Já havia algum tempo que o (José Carlos) Carboni (atual Diretor de Jornalismo), que está na Bandeirantes e que havia sido meu chefe aqui na Pan, me sondava. E todo o final de ano, a gente conversava e tudo mais... então foi quase natural. Houve um certo mal estar quando eu fui para a Bandeirantes, porque o Lívio Oricchio era o comentarista da Bandeirantes, e a idéia do Odinei – pelo menos foi o que ele me disse na época -, era ter 2 comentaristas, e eu trabalhar talvez, até um pouco mais como repórter.

Nesse esquema que ele estava montando, é o que já tinha lá na Bandeirantes. Mas o Lívio ficou meio chateado, meio zangado, achou que eu estava “puxando o tapete dele”, e o Lívio acabou não ficando. E eu fui. Logo depois, o Odinei contratou também o Fábio Seixas – que era repórter da Folha de S.Paulo -, e a gente fez um time muito bom eu acho, durante 4 anos... de 2002 a 2005.

Era um time muito divertido, era uma equipe muito divertida, muito boa. A Bandeirantes é uma Rádio que... na verdade o Grupo Bandeirantes é um grupo que eu não tenho muitas saudades. Eu tenho saudades do trabalho que a gente fazia – era muito gostoso -, era muito bom, de ótima qualidade mesmo... Mas o Grupo Bandeirantes é um grupo mercantil demais... é um grupo muito fragmentado no que diz respeito a negócios, e que coloca muito os negócios a frente do conteúdo, e da qualidade editorial, na minha visão.

Por isso quando eu saí da Bandeirantes, o Odinei Edson estava com alguma dificuldade para arranjar a verba para fazer a temporada de Fórmula de 1 de 2006, e eu ganhava muito pouco no esquema do Odinei, mas esse esquema de qualquer maneira, viabilizava minhas viagens e meus outros negócios – que eram os jornais, que era a internet, e eu fui ficando. Mas era realmente muito pouco, e eu era tratado na Bandeirantes – eu e o Fábio -, como se nós fossemos funcionários da Bandeirantes, e na verdade nós não éramos. Nós éramos funcionários do esquema do Odinei Edson, e na verdade nós éramos “terceirizados do terceirizado”. No primeiro “aperto de grana” o Odinei não renovou comigo, enfim, me “tirou da jogada”... mas o que me deixou chateado na época, e me deixou mais chateado ainda, mais para frente, foi quando ele contratou o rapaz que foi se oferecer ao (Jornal) Lance! para fazer Fórmula 1 no meu lugar (essa referência é ao jornalista Luís Fernando Ramos, o “Ico”).

Então são essas pequenas mágoas que vão ficando pelo caminho, mas enfim, tomara que essas pessoas não se sintam muito magoadas comigo pelo que eu estou falando, porque foi o que realmente aconteceu.

Agora, a Bandeirantes tem umas coisas tão esquisitas... Quando eu saí da Bandeirantes, no final de 2005, eu já estava na ESPN (TV) também, já tinha sido contratado pela ESPN, e eu mudei radicalmente a minha vida: parei de viajar, porque eu queria ver meus filhos crescerem. Também, as corridas começaram a ser realizadas cada vez mais longe, num período mais curto. Corrida na China, corrida no Bahrein, corrida em Cingapura, Abu Dhabi, essas coisas... e eu estava cansado já. Tinha feito isso durante 18 anos, praticamente sem perder nenhuma corrida. Então eu mudei radicalmente a minha vida, mirei mais em televisão, mais na internet...

Mais foi tão engraçado, que em abril de 2006 – por isso que eu falo que a Bandeirantes é uma casa que eu não tenho saudade, e não sei se eu voltaria a trabalhar na Bandeirantes, possivelmente não -, em 2006 estou eu no carro, e toca o meu celular: é o Carboni. Aí o Carboni diz assim: “Flavio, a coisa está feia para você aqui!” Eu falei: “O que está acontecendo Carboni? Eu nem trabalho aí mais!” E o Carboni: “Não, porque você fez uma coluna no Lance!, falando mal da Fórmula Indy.

Eu tentei lembrar o que era... aí eu lembrei: havia morrido um piloto na Fórmula Indy, num treino – acho que foi em Homestead, sei lá -, foi num warmup, e foi acidente meio absurdo, porque o cara rodou, e ficou um tempão “rodado”, e veio outro e bateu... não teve bandeira amarela... enfim, aquelas coisas da bagunça que a Indy de vez em quando é. E eu fiz uma coluna sobre esse assunto. Imagina se eu tinha pensado na Bandeirantes! Só que a Fórmula Indy, é um produto da casa, um produto da Bandeirantes.

Então o tal do Willy Hermann, que era ou ainda é – não sei -, o comentaristas das corridas na Bandeirantes – e por isso que eu falo que a Bandeirantes mistura muito as coisas -, além de ser comentarista de Fórmula Indy, ela era (é) o detentor dos direitos da Fórmula Indy para o Brasil. Quer dizer, ele era o dono do negócio, e ele alocava o negócio a Bandeirantes, e ele comentava o negócio dele. Isenção (risos)... zero, né? Você é o dono do negócio, e você é o comentarista, na minha visão isso é um absurdo, e são essas coisas que a Bandeirantes faz e não está nem aí... Eu acho o fim da picada.

E aí o Willy Hermann, quando leu a minha coluna no Lance, foi ao Johnny Saad e pediu “a minha cabeça”. E a coisa é tão desorganizada lá, que o Johnny Saad, segundo consta, - é que o Carboni me contou -, mandou “me demitir”! (risos)... sendo que eu nunca tinha sido contratado da Bandeirantes, e já tinha saído da Bandeirantes, havia seis meses.

Então é uma coisa tão doida, a esse ponto, de um cara ir pedir a cabeça de alguém, o dono da empresa mandar embora, mandar “cortar a cabeça”, e o chefe que sabe que eu já tinha saído, me ligar para dizer que eu ia estar "fudido" na Bandeirantes...

Eu disse: “Vocês são todos loucos, são todos completamente loucos”. Agora, isso é uma demonstração muito clara de como as coisas funcionam na Bandeirantes: essa interferência do (setor) Comercial no Editorial – você não sabe até onde é jornalismo, o que é negócio, o que é “business” -, eu realmente não sou talhado para trabalhar desse jeito. Eu não consigo misturar as coisas desse jeito. Então, esse é um dos motivos pelos quais eu acho que não voltaria a trabalhar na Bandeirantes – embora tenha muitos amigos lá, do mesmo jeito.

Esse Willy Hermann por exemplo, é um cara que eu nunca vi pessoalmente, eu nunca conversei com ele. E muito menos o Johnny Saad. Mas os meus amigos na Rádio: (Sérgio) Patrick, o (Cláudio) Zaidan, o (José) Silvério, o (José Carlos) Carboni, o Zé Paulo de Andrade... poxa... pessoas por quem eu tenho um carinho enorme, mas é gozado, eu não tenho um carinho enorme pelo prefixo.


10) Na televisão, você chegou a comentar algumas corridas de Fórmula Indy, não é?

Com o Téo José. Eu comentei umas 3 ou 4 corridas com o Téo José, no SBT. Também como convidado, para “quebrar o galho”, porque era tudo “off tube”. E fiz corridas de Fórmula Indy no Rio, na primeira corrida de Fórmula Indy no Rio, a Jovem Pan era a emissora oficial do evento. E nós fizemos uma grande cobertura, inclusive transmitindo pelo FM (Jovem Pan 2) e tudo mais.

Foi aquela grande vitória do André Ribeiro, e depois fiz mais uma ou outra.


11) Você acha que é muito difícil fazer Fórmula Indy no Rádio? Por ser tão diferente da Fórmula 1, você consegue ter certeza que o ouvinte está entendendo?

O problema da Fórmula Indy em Rádio, não é o problema da técnica de transmissão. Isso se resolve, se transmite qualquer coisa em Rádio. O problema da Fórmula Indy é que os horários das corridas muitas vezes “batem” com os horários de futebol.

A Fórmula 1, ela tem alguns horários muito claros, boa parte das corridas acontecendo sempre as 9h da manhã no horário de Brasília – que são as provas européias, e as que não são provas européias, elas acontecem meio que de madrugada, ou tarde da noite. Então não “bate” com futebol, tirando a corrida do Canadá que fica ali pertinho, ou nos Estados Unidos, ou a própria corrida do Brasil, o resto não interfere na programação de emissora de Rádio nenhuma.

E emissora nenhuma vai tirar futebol do ar para colocar Fórmula Indy,  a não ser quando você faz negócio: fecha por exemplo, a transmissão... aí é “business” de novo.

Fechamos a transmissão da corrida de Fórmula Indy aqui em São Paulo”... ou a do Rio, quando era a prova no Rio... e eu lembro que em 1995 – o primeiro ano pós-morte do Ayrton Senna – como houve uma migração muito grande de pilotos brasileiros para a Fórmula Indy – chegou-se até a imaginar que a Fórmula Indy, aqui no Brasil, pudesse ocupar o lugar da Fórmula 1, porque o Christian (Fittipaldi) havia ido para lá, e tinha o Gil de Ferran, e tinha o Emerson, chegou-se a imaginar que a Indy poderia ocupar esse lugar. Não aconteceu!

Nós chegamos a transmitir algumas corridas pela Pan mesmo e de madrugada, mais “off tube”, quer dizer, sem ir para lá... e teve uma Indianápolis só, que houve transmissão, e que eu não fui, o Milton Neves é quem foi, pois eu já tinha saído da Pan, mas a Fórmula Indy no Rádio nunca vai rolar! Esquece! Isso não vai acontecer.

12) Ainda sobre a Bandeirantes. Além do programa “Pole Position”, o que mais você fez na Bandeirantes?

Bom, nós fazíamos as coberturas das corridas muito intensamente, muitos boletins em todos os programas da Rádio – eu e o Fábio, nós fazíamos um trabalho muito legal, nós não repetíamos boletins, era muito bacana.

Eu apresentava o “Pole”, e participava muito na madrugada, com o Zaidan. Mas era uma iniciativa muito mais pessoal minha e dele, do que da Rádio. As minhas obrigações na Bandeirantes eram essas: fazer Fórmula 1 e fazer o “Pole Position”. E que já me ocupavam bastante tempo, porque nós entrávamos em toda a grade, durante todo o dia – eram boletins patrocinados.

Então tinha boletim no “Pulo do Gato”, tinha o “Primeira Hora”, tinha no “Jornal Gente”, tinha no “Esporte Notícia”, tinha a tarde, tinha no final da noite, tinha nas jornadas, no “Terceiro Tempo” – quando o Milton foi para a Bandeirantes também -, e então era uma participação muito intensa, e ficava muito tempo no ar. E como a Bandeirantes era e ainda é, a emissora oficial do Grande Premio Brasil de Fórmula 1, na semana do GP Brasil... putz... a minha dedicação era quase que integral a Rádio.


13) Nessa época que você estava na Bandeirantes, você trabalhou também numa Rádio na Itália?

Eu fui correspondente no Brasil durante alguns meses da Rádio Capital de Roma (FM 95,5 MHz). Como eu falo italiano, e o Rubinho (Barrichello) estava na Ferrari, o pessoal da Rádio queria ter um cara aqui (no Brasil) para falar de Fórmula 1, pelo ponto de vista do Brasil. Mas foi por pouco tempo... sei lá... era um boletim por dia, durante 6 meses... alguma coisa assim...

Mas era legal, era divertido, porque era diferente e é difícil um brasileiro sendo correspondente de uma Rádio de outro país. Mas isso só aconteceu porque o Rubinho estava na Ferrari.


14) Ainda sobre a equipe de Fórmula 1 da Bandeirantes, a impressão que vocês transmitiam aos ouvintes, é que a equipe tinha uma grande união e cumplicidade. Inclusive, uma brincadeira que surgiu na sua época, sobre um locutor do circuito espanhol/catalão, que anunciava as 40 músicas mais pedidas daquela semana, é feita até hoje (o Odinei Edson faz ainda a referência a esse locutor, sempre que a corrida chega na volta de nº 40). Quando você estava lá na equipe era tudo isso mesmo que vocês passavam ao ouvinte? A impressão que vocês passavam, é que se tratava de uma “família”...

Era, era... o nosso “timinho”: eu, o Odinei e o Fábio, nós sempre nos damos muito bem! Eu fiquei muito chateado com o Odinei quando eu saí, e depois o que aconteceu com essa historia do Lance! e tudo mais, porque também ele (Odinei) participou, e sabia que a entrada desse menino – que é o Luís Fernando Ramos (“Ico”) - no Lance!, iria me tirar do Lance! – e de fato me tirou, e isso era uma coisa muito “cara” para mim, sabe, porque não era questão de “grana”: eu estava no Lance! desde o numero “zero”, desde 1997... eram oito anos de jornal, e isso me chateou muito.

Inclusive acabou com a amizade que eu tinha com o Odinei, o que é uma pena! É uma coisa que eu lamento bastante mesmo.

Agora, nós éramos muito amigos! Assim, de freqüentar a casa um do outro, eu sou padrinho de casamento do Fábio Seixas, eu e o Fábio éramos quem viajava – o Odinei Edson não viajava... o Odinei fazia daqui as corridas, e apenas uma ou outra é que ele viajava. Eu e o Fábio somos muito amigos, muito amigos mesmo! E já dividimos tudo: quarto, carro, almoçávamos e jantávamos juntos, e eu via mais o Fábio do que a minha esposa e ele também.

Então a nossa equipe era realmente aquilo: era muito divertido, era muito gostoso fazer aquele trabalho... gozado: apesar de eu não querer voltar para a Bandeirantes nunca – provavelmente -, foi mais gostoso fazer Fórmula 1 na Bandeirantes, do que na Jovem Pan.

Na Jovem Pan era um trabalho meio solitário... tirando o primeiro ano que o Nilson César ainda viajava – depois ele parou -, mas o meu trabalho era meio solitário mesmo. Na Bandeirantes não: na Bandeirantes eu fazia tudo com o Fábio Seixas. Então, esse clima não era um clima “fake” não. Era absolutamente real, nos sempre fomos muito próximos, nos vivíamos aqui (no Brasil) nos encontrando... nisso foram anos muito legais.

É gozado isso: dos meus anos de Bandeirantes, eu não tenho queixa. Nenhuma. Queixa editorial, ou desse tipo de interferência que mencionei, do Willy Hermann, ela nunca aconteceu enquanto eu estava lá. Engraçado que a interferência foi acontecer quando eu havia saído da Rádio. O que é uma coisa absolutamente esquizofrênica, né? Mas foi um período muito gostoso. Trabalhar com o (Cláudio) Zaidan, por exemplo – o Zaidan para mim é o melhor cara de Rádio “do mundo”... não é nem do Brasil... é uma honra, um orgulho de verdade! Mesmo com outros nomes, como o (José) Silvério, e com o Milton (Neves) – com quem eu já tinha trabalhado. O Milton também é um “avião” no microfone. Disso não há realmente o que reclamar. Foram 4 anos muito gostosos.

15) Você citou no início desta entrevista, que a sua vida e sua vivência no jornalismo é “Rádio”. E você ficou o ano inteiro de 2006 fora do ar. Você saiu da Bandeirantes no final de 2005 e só foi estrear na Eldorado/ESPN em 2007. Como foi esse ano sem fazer “Rádio”?

Exatamente! Foi “estranhíssimo”! “Estranhíssimo”! Quando eu fui ao Grande Prêmio do Brasil (de Fórmula 1), e pela primeira vez, desde 1994, eu não trabalhei para uma emissora de Rádio. E de 1994 até 2005, no dia de Grande Prêmio do Brasil, eu amanhecia no autódromo com o microfone na mão, e ficava até acabar. Então foi muito estranho. Muito estranho.

Eu não ouvi Rádio naquela corrida, eu simplesmente me desliguei, disse assim: “não vou escutar, eu vou ficar triste de não estar participando de nenhuma grande transmissão”. E foi realmente estranho. Foi muito esquisito. Eu continuei fazendo algumas coisinhas em Rádio, por exemplo: até hoje eu faço – e faz algum tempo -, faço boletins para uma Rádio das cidades históricas de Minas: a Colonial FM (104,7 MHz – Congonhas/MG). É uma “coisinha”, é um “freelinha”, que mais me deixou em atividade falando de Fórmula 1 nesse período todo, do que qualquer outra coisa. Porque em termos de dinheiro é “insignificante”, mas é claro que não se compara ao que eu fazia nessas duas grandes Rádios, para a Fórmula 1, que era uma participação muito ativa... muito intensa mesmo.


16) Você já declarou em outras oportunidades, que não é mais seu plano viajar o mundo, mas você não tem vontade de continuar comentando Fórmula 1? Mesmo que em “off-tube”?

Cara, eu não gosto muito do “off-tube”. Eu não curto. Eu gosto muito de Fórmula 1, eu gosto muito das corridas, eu gosto muito de viajar, mas é gozado: eu não sinto falta daquela vida.

Aquela vida era muito desgastante, fisicamente falando... E não é que eu não sinta falta: claro, eu sinto falta. Eu sinto saudades, mas eu não faria isso de novo. Não hoje, do jeito que é a Fórmula 1. Não hoje com 20 corridas, sendo que 10 delas são na Ásia. E eu não tenho mais idade, e a Fórmula 1 hoje não tem tanta importância no Brasil, para que você vá morar na Europa.

Isso na década de 80 e 90, era o padrão dos jornais, para manter correspondentes na Europa – que faziam outras coisas, mas faziam o noticiário de Fórmula 1. Acho que hoje não precisa. Com todos os recursos que nós temos para conseguir informações, e com todas as dificuldades que existem hoje e são impostas pelas equipes de Fórmula 1- para você falar com as pessoas, e tudo mais -, é uma cobertura muito cara, muito desgastante, e que em algum momento vai ser repensada por alguns veículos por ai, porque o custo é realmente muito alto.

Então, na nossa vida, nós temos muitas saudades de algumas coisas, o que não quer dizer que a gente queria fazê-las de novo. Eu tenho, por exemplo, enorme saudade do meu tempo de Folha de S. Paulo. Mas eu não voltaria a trabalhar na Folha. Primeiro porque o veículo “Jornal” perdeu a importância. O veículo “Jornal” não tem a importância de quando eu trabalhava em Jornal. Eu trabalhei na Folha de 1986 a 1994. Quer dizer, eu “peguei” a redemocratização do País, a eleição do (Fernando) Collor, o Plano Collor, o impeachment, “peguei” os três campeonatos do (Ayrton) Senna na Fórmula 1, uma porção de coisas que só jornal cobria, porque realmente não existia internet, e o grande veículo “sério” – digamos assim... sério bem entre aspas, né? -, era o Jornal. E hoje não é! Hoje é quase um subproduto da comunicação. E a tendência é mesmo desaparecer, pelo tanto que custa caro para fazer Jornal, imprimir Jornal, rodar Jornal, distribuir Jornal... é um negocio que uma hora – não vai ser agora, nem vai ser daqui a 5 ou 10 anos -, mas uma hora vai acabar. Porque o Jornal é anti-econômico.

Então eu sinto saudades, mas eu não voltaria a trabalhar em Jornal, provavelmente. Digo provavelmente, porque “sei lá”, não sei... a gente nunca sabe. Mas não é uma meta. Do mesmo jeito, que não é uma meta voltar a viajar com a Fórmula 1. Eu posso eventualmente ir fazer uma corrida em Mônaco, em Spa-Francorchamps, ou ficar um mês na Europa – fazer três corridas, se eu quiser fazer. Mas também não faz parte dos meus planos. De novo... eu sinto saudade, mas não quer dizer que eu tenha que fazer novamente.


17) Nesse sentido, a Rádio Eldorado/ESPN não tem nenhum projeto de transmissão de corridas de Fórmula 1?

Tem! A Eldorado/ESPN tem... e a emissora estava ou está até negociando a compra de direitos de transmissão e tal, mas pelo pouco que eu sei – porque está havendo um período de transição agora na Eldorado/ESPN, junto ao “Estadão”, que é o dono da Rádio Eldorado -, até onde eu sei, não há planos para viajar para todas as corridas. Até onde eu sei!

Agora, se a gente for mesmo transmitir Fórmula 1, e eu for escalado para comentar as corridas, eu vou fazer “na boa”. Porque eu assisto as corridas do mesmo jeito, eu vejo as corridas do mesmo jeito... Mas uma cobertura legal, bacana, ela é “in loco”. É lógico que dá para fazer hoje qualquer coisa “off tube”, tanto para televisão, quanto para Rádio – Rádio faz muito “off tube” -, e até internet, jornais, você faz as coisas a distância hoje, do que se fazia antes. Mas as melhores coberturas, sem dúvida, são aquelas que acontecem no local.

Tanto que nós fizemos na Eldorado/ESPN uma cobertura de Copa do mundo, que foi excepcional. E por que foi excepcional? Porque nós tínhamos 40 caras trabalhando. E aí, não tem quem segure!

18) Sobre seu atual momento na Eldorado/ESPN, você faz o trabalho de âncora antes dos jogos de futebol, durante os jogos, após os jogos. Você já nos disse no começo da entrevista, que começou no jornalismo esportivo através do futebol, depois você foi pro automobilismo e agora você volta para o futebol. Como é que você faz o tratamento dos dois produtos – bem distintos: futebol e automobilismo? Você ainda tem um site sobre automobilismo (www.grandepremio.com.br), e no Rádio e na televisão você trabalha basicamente com futebol?

Bem, primeiro que só da minha participação no projeto Eldorado/ESPN, já seria muito natural que fosse assim, porque da equipe original que migrou da TV para o Rádio também, eu era um daqueles que tinha mais experiência em Rádio. E era normal que eu estivesse incluído nesse negócio. E eu gosto muito, de fazer (futebol)!

Não era algo que eu já tivesse feito antes, mas eu não tive a menor dificuldade em fazer. Porque ancorar jornal eu já tinha ancorado – diariamente na Jovem Pan -, ancorar transmissão de Rádio, especialmente de futebol, para mim não tinha muito segredo. Então é um trabalho que eu gosto muito, e eu acho que a nossa equipe na Eldorado/ESPN, é uma equipe muito boa, muito forte, nós temos nomes que são consagrados na televisão, alguns que foram consagrados já no Rádio antes – o Cledir (Oliveira), o Paulo Soares, o Carlos Lima, O Reinaldo (Costa) - que saiu da Rádio -, mas enfim...

E alguns estão sendo grandes revelações do Rádio, como o PVC (Paulo Vinicius Coelho), o Mauro Cezar (Pereira), e alguns que já tinham passagens anteriores, como o Paulo Calçade.

Nós temos repórteres bons... Eu acho que nossa equipe é realmente muito, muito boa. Nós tivemos algumas dificuldades no começo, nós temos alguma dificuldade ainda, em termos de audiência, porque Rádio é hábito, Rádio é um companheiro do ouvinte. Então, é muito difícil você fazer uma pessoa mudar de Rádio, mas também é legal quando o cara muda, e adota tua Rádio. Nós estamos ainda tateando, embora nós já estamos entrando no quinto ano, nós estamos ainda tateando o mercado, eu acho.

Mas isso eu prefiro deixar lá para as duas Direções – porque são duas empresas muito importantes: o Estadão e a ESPN -, e a única coisa que eu acho é que realmente nós fazemos um trabalho muito bom, comparável a qualquer outra Rádio, e acho que na maior parte das vezes melhor. Porque nós temos gente muito boa lá trabalhando, né?

E sobre voltar a trabalhar só com futebol – eu digo voltar porque fiz isso na (revista) Placar, porque eu fui editor de esportes na Folha, quer dizer, futebol para mim também não era nenhuma grande novidade. Agora, o que é legal no que eu faço, ou melhor, no que nós fazemos, e principalmente no espaço que eu tenho na TV e na Rádio, é que eu fujo um pouco do perfil dos “Loucos por Futebol”, como a gente brinca lá. Nós temos lá na ESPN um time de comentaristas, que são absolutamente loucos mesmo, profundos conhecedores de futebol – internacional ou futebol nacional -, é um negócio “assustador” até. É uma geração de jornalistas, muito bem preparada para falar de futebol, e eu não sou tanto! Aliás, não sou nem um pouco preparado como eles, porque a minha relação com o futebol é um pouco diferente.

A minha relação com o futebol é muito de ir ao estádio, de torcer para um time que não ganha nada, curtir o ambiente do jogo... Eu diria que a minha visão sobre o futebol, é um visão muito lúdica ainda, e é muito parecida com a que eu tinha, quando tinha 14 ou 15 anos de idade. Então, o futebol para mim, é uma “coisa de criança”, e eu continuo lidando com o futebol assim: como um brinquedo de criança.

Eu me emociono, eu me empolgo, eu não me aprofundo em questões técnicas e táticas – que na maioria das vezes eu acho chatas, mas eu reconheço que existe público para isso e admiro quem se aprofunde nisso -, mas não é o meu perfil. E por isso, acabamos tendo assim, uma mistura muito legal, muito curiosa na ESPN.

Caras como eu, o João Carlos Albuquerque, o Rodrigo Rodrigues – que agora assumiu o “Bate Bola 2”na TV, e no contraponto, e numa convivência muito harmoniosa, com gente que é exatamente “louca” - que respira, que come futebol... E que não é o meu caso, né?

Eu também tenho Fórmula 1, eu também tenho outras coisas, quer dizer, tenho outros interesses... Mas funciona! Porque nós temos uma linguagem no Rádio – aquela linguagem dos anos 1960 ou 1970, uma coisa de uma época, que era muito “empolada”, que não existia televisão, não existia internet, e o cara de Rádio falava qualquer negócio e estava valendo, era verdade -, e nós não temos também uma visão “tecnicista” do futebol, que eu acho aborrecida. A gente consegue “brincar” com as duas coisas. Porque no fundo futebol é isso. Futebol é entretenimento, é brincadeira.

Eu acho que não se deve levar o futebol tão a sério como muita gente leva, e da mesma forma, não se deve ser negligente com aquilo que exige seriedade no futebol, que é o aspecto político, o aspecto negócio, o aspecto lisura, ética... Então eu acho que essa receita está funcionando bem.


19) Quais são suas atividades fixas hoje na Rádio Eldorado/ESPN?

Eu faço o que nós chamamos de “Abre o Jogo”, que é um pré-jogo, faço o intervalo e faço o pós jogo, que se chama “Bate Bola”. Nesse momento é só.

Agora, como o projeto prevê uma ampliação do espaço que a ESPN vai ter na programação da Eldorado, é provável que eu venha a fazer mais coisas daqui para a frente.


20) Essas mudanças passam, por exemplo, por mudança de nome (da Rádio)? Está previsto isso mesmo?

Eu não tenho receio de cometer nenhuma indiscrição, do tipo eu falar: ah, é... vai mudar de nome, até porque eu não sei! Juro que não sei! Até o final do ano passado, o que se comentava lá – e não era só lá, era algo que tinha “vazado” para a mídia especializada – é que a Rádio Eldorado iria mudar de nome, para “Estadão/ESPN”... Mas essa é uma decisão que depende muito mais do Grupo O Estado de S. Paulo, do que da ESPN. A Rádio é deles, não é nossa. O que eu sei é que o projeto é muito bem sucedido do ponto de vista editorial, e por ser tão bem sucedido, vai ser ampliado.

Agora, o que vai acontecer exatamente, eu te juro que não sei. Até porque, eu não passo meus dias na redação da ESPN, eu tenho meu próprio escritório. Eu freqüento mais a ESPN para fazer os programas, do quais eu participo. Então, eu não tenho grandes “segredos” para contar.


21) Para o seu Blog (http://colunistas.ig.com.br/flaviogomes), você dedica um tempo considerável do seu dia. Existem dias, em que você dedica 4 ou 5 horas no total para o seu Blog. Mas você já disse, até por mais de uma vez, que não gosta de divulgar nada sobre futebol no Blog porque vira uma confusão tremenda. Como é isso para você, trabalhar com futebol na Rádio e na TV, e praticamente negar o futebol no Blog?

Primeiro, há uma razão original que é o fato do Blog ter nascido como um apêndice do site Grande Prêmio. O Grande Prêmio faz parte do Portal IG, praticamente desde o começo, e o Blog nasceu como um apêndice do Grande Prêmio. Então, o Blog nasceu originalmente para falar sobre corridas de carros, e tudo mais.

Agora, “blog” é algo que te permite falar sobre qualquer coisa. E eu não me limito mesmo a falar sobre automobilismo, e quem acompanha o Blog sabe. Mas porque eu não falo tanto sobre futebol: porque primeiro eu acho que tem muita gente já falando de futebol na imprensa. E eu não acho que tenha grande coisa a acrescentar, sinceramente.... ao menos por escrito. E depois outra: existe um grande problema com o público de futebol. Seguinte: essas novas ferramentas da internet, que te permitem interagir com seu leitor, telespectador e ouvinte, elas são muito interessantes, são muito legais – porque eu sou de uma época, quando comecei no jornalismo, que a única forma que a pessoa tinha para se comunicar com você, era a carta, ou então por telefone no caso de uma emissora de Rádio.

Mas você não tinha o que nós temos agora, que é uma resposta imediata aquilo que você diz e escreve. E o problema, é que o torcedor de futebol, é isso: um torcedor. E eu não tenho muita paciência com o cara que me escreve para me xingar, porque eu fiz uma crítica ao Palmeiras. Ou eu fiz uma brincadeira com o Corinthians, ou eu fiz uma piada com o São Paulo. E não tenho a menor paciência... a menor paciência. Porque aí deixa de ser interação... aí, o cara não esta entrando em contato com você, para comentar com você, para discutir com você, sobre aquilo que você escreveu. O cara está te xingando, do mesmo jeito que na arquibancada do Pacaembu, ele pode virar para a cabine e soltar: “ah, você é um filho da p...”. Então eu não tenho paciência. Realmente eu não tenho paciência. E vejo como sofrem os meus colegas, que são comentaristas de futebol, e que tem blog de futebol, com esse tipo de reação de parte do público, que é totalmente irracional, e é uma coisa meio que primitiva. Eu não tenho o menor “saco” para isso.

Então, no Blog, eu evito falar de futebol. Eu brinco muito com futebol, brinco muito com a Portuguesa. Eventualmente eu falo alguma coisa, desse futebol lúdico que eu digo, que são os times pequenos – que é a história do Auto Esporte da Paraíba agora (time de futebol da primeira divisão paraibana, que foi fundado por taxistas, em 1936, e tem um volante em seu distintivo), que eu adotei como time do Blog. Mas eu não tenho a menor pretensão de fazer um blog de futebol. Não. Fiz durante a Copa, porque o IG me pediu, e foi legal. Teve muita resposta... Agora, é seleção brasileira. E quando você começa a mexer com clubes... obrigado. Distância.

22) Ainda em relação ao Blog, qual o número de acessos diários?

Tem bastante. O Blog tem uma média de 40 mil visitas por dia, o que é bastante. E que aumenta mesmo, em finais de semana de Fórmula 1. As vezes até dobra. É um Blog bem acessado.

Dos blogs do IG, segundo me dizem – porque eu também não tenho acesso ao número dos outros -, ele está ali: vem o meu e o do Milton (Neves), depois vem um blog de moda ou alguma coisa assim ou de celebridades, porque tem muita chamada.

Audiência de internet, ela depende muito de chamadas na “Home” e nos portais. Mas é gozado que o meu Blog não se altera muito, tenha ou não tenha chamadas na “Home”. Ele tem uma audiência bastante fiel.


23) E o site Grande Premio? Como está audiência do site?

O site tem uma audiência ainda maior. O site tem uma audiência hoje de 100 mil ou 120 mil acessos por dia... daí para cima. E nos finais de semana de corridas, 250 mil acessos.

O site é o maior site de automobilismo hoje no Brasil, não tenha dúvida. Nós não temos muita concorrência nessa área, assim. Porque na época que houve a “bolha” na internet, surgiram muitos sites de tudo, inclusive de automobilismo. Eu já estava no ar, fazia algum tempo, e a maioria deles “morreu”, e o Grande Prêmio ficou. Então, é uma marca bem sólida nesse mercado.


24) A mudança do nome original do site – Warm Up -, foi uma imposição do IG ou foi porque acabou o warm up nas corridas?

Não, não foi uma imposição. Warm Up é o nome da minha empresa, que era o nome da minha coluna na Folha. E quando surgiu a internet no Brasil, ele entrou no ar como Warm Up, mas nós nem sabíamos direito o que seria a internet.

Quando o IG me chamou, nós discutimos o nome, e eu até concordei. Mas não foi nenhuma imposição não. A gente discutiu assim: “escuta, que nome nós vamos dar para isso?” Warm Up é um nome legal, e tal, mas você veja, hoje nem existe mais o Warm Up na Fórmula 1. E é um nome inglês, e nós discutimos uma série de domínios, inclusive eu tenho vários domínios em meu nome. Mas Grande Prêmio foi legal. Foi um nome bacana.

Existe ainda o “Grand Prix” na Inglaterra, o filme “Grand Prix”, toda corrida é um Grande Prêmio. Então é um nome que esta sempre sendo falado, e tal... Foi uma boa escolha.


25) A sua Agência trata hoje Flavio, exclusivamente do assunto automobilismo, ou faz a cobertura de outros eventos?

Não, só automobilismo. A Agência hoje é a provedora de conteúdo para o site Grande Prêmio, para jornais – hoje por volta de 12 ou 13, esse número pode variar, mas não muita coisa. Foi o que eu te disse: esse mercado de jornais está encolhendo -, e agora só trabalhamos com automobilismo.

A Agência chegou a trabalhar, por volta de 1996 ou 1997, com vôlei e com basquete. Mas só distribuindo colunas, para jornais. Mas foram duas tentativas, que até deram certo enquanto funcionavam, mas não era algo que nós investimos muito.


26) Nunca surgiu a hipótese de a Agência Warm Up passar a produzir material “falado”, ou seja, programas de Rádio ou Podcast para emissoras? Produtos como as empresas do Odinei Edson e do Éder Luiz realizam?

Olha, nós chegamos a fazer Podcast, no site Grande Prêmio, e que lá chamava “Rádio GP” (www.bastidoresdoradio.com/noticias_setembro.htm). Vender esse produto para emissoras de Rádio, era algo até natural. Se eu fosse um bom empresário, eu estaria tentando fazer isso. O problema é que eu me considero um desastre como empresário. Eu sou muito mais um jornalista do que um empresário.

Eu virei empresário, porque eu fui demitido da Folha... senão, provavelmente eu estaria trabalhando lá  ou em outro lugar até hoje. Então, algumas possibilidades que nós poderíamos explorar – ainda mais hoje com internet -, nós não exploramos “ainda”. E não quer dizer que eu descarte isso. Talvez nós possamos ainda fazer algo para Rádio... redes de Rádio. Vira e mexe, surgem algumas conversas, aqui e ali, mas nunca emplacamos nada. É uma possibilidade, sem dúvida.


27) Sobre suas atuações na televisão, você citou sobre os comentários no SBT. Na TV Bandeirantes, você chegou a fazer algum programa ou transmissão?

Na TV, eu cheguei a fazer um ou outro programa, como convidado no BandNews ou no BandSports. Mas na TV Band não. Participei de algumas coisas no SporTV, mas também sempre como convidado.

Emprego na televisão, emprego mesmo, esse é meu primeiro. Na ESPN é o primeiro.


28) O que você gostaria de fazer profissionalmente no Rádio, que ainda não teve oportunidade de realizar?

Eu não vou dizer no Rádio, mas vou dizer no “jornalismo”, porque embora eu seja um “adorador” de Rádio, eu acho também, ao mesmo tempo que hoje em dia, um jornalista não pode se limitar a um único veículo.

Essa história de “multimídia” hoje, é uma necessidade. Porque não existe mais um veículo: se nós olharmos hoje, qualquer grande Rádio, ela tem os seus “blogueiros”, ela tem os seus Podcasts, a Jovem Pan tem por exemplo, o “Jovem Pan Online” – que é televisão também.

Então, acho que não existe mais hoje, aquele profissional que é só de Rádio, ou só de Jornal, ou só de TV. Se o profissional está fazendo isso, ele está patinando. Então, eu tenho um sonho de jornalista – que incluiria Rádio, evidente, mas também incluiria outros veículos, que é de ser um repórter “avulso”, cobre aquilo que é mais importante no mundo hoje. Então, por exemplo, hoje eu estaria na Região serrana do Rio de Janeiro. Cinco anos atrás, eu estaria em Roma cobrindo a morte do Papa. Há um ano, eu estaria no Haiti, fazendo a cobertura do terremoto. No final do ano, eu teria ido ao Chile, acompanhar o resgate dos mineiros...

Eu gostaria muito de ser um repórter itinerante mesmo... Mas isso é um sonho mesmo, até porque, eu nem sei se isso é viável hoje, contando com família, com filhos, e tudo mais e tal... mas, não descarto essa possibilidade “um dia”, de fazer isso: ser um “saltimbanco da notícia”, sabe? Aquele que vai onde a notícia está acontecendo. Porque hoje, com os meios técnicos que nós dispomos, você consegue entrar no ar em qualquer emissora de TV, em qualquer Rádio... com um laptop, em qualquer lugar do mundo, em dois minutos.

Poxa, eu trabalhei com “telex”. Eu sei o que era difícil mandar uma matéria para um jornal. Mandar uma foto então, era um trabalho “hercúleo”. Fazer um link de televisão para mandar uma notícia: poxa, quando o Senna morreu, me lembro que a Globo teve que alugar um caminhão – um caminhão -, para estacionar na frente do Hospital Maggiore, em Bologna, para o (Roberto) Cabrini poder entrar no ar.

Quer dizer, hoje com um “computadorzinho”, você entra no ar, de qualquer lugar do “universo conhecido”. Então, dá para fazer isso, né? Eu gostaria de fazer isso um dia. Mas, é um projeto. É um plano, e quem sabe um dia, eu consiga levar adiante.

29) Não sei se só aparentemente, mas fazer o quadro do programa “Limite” (da ESPN Brasil), o “Indiana Gomes” (trocadilho com o nome do famoso arqueólogo do cinema, pois nesse quadro, Flavio Gomes mostra diferentes modelos de veículos antigos, fabricados em qualquer parte do mundo), é uma coisa que dá muito prazer em realizar? Ou a empatia que você passa ao público é apenas enquanto as câmeras estão ligadas? A impressão do público, é que você faz as matérias com enorme prazer...

O nome do quadro já é uma brincadeira, engraçada, e no começo eu usava até um chapéu (semelhante ao de Indiana Jones)... Me dá (prazer) sim, claro! Esse é um assunto que eu gosto. Eu adoro carro, e adoro carro antigo.

Agora, - juro, sem falsa modéstia -, eu me acho um péssimo repórter de televisão. Eu não conheço técnicas de televisão. Eu não sei editar... eu não sei decupar, eu não sei fazer passagens, eu não sei "porra nenhuma" de televisão! O que, em alguns momentos é muito bom, é que faço com espontaneidade. Eu nunca saio para fazer uma matéria, com a matéria “fechadinha” na minha cabeça – que é uma necessidade dos repórteres de televisão.

Poxa, o cara faz isso no dia a dia: o cara sai de manhã para cobrir o treino do São Paulo, ele tem que ir com a pauta dele na cabeça, porque ele vai voltar, chegar na emissora com o tempo super apertado, tem que sentar com o editor para editar e tal, e eu não sei fazer isso! Eu não tenho saco para decupar fita, eu não tenho paciência para ficar anotando “ah, aqui entra o ‘off’, e aqui entra não sei o que”... então, o que eu faço: eu solta a câmera, digo para o cara “vai gravando”. E as minhas matérias, quando eu saio para gravar, eu as gravo em ordem cronológica, com começo, meio e fim. E geralmente eu faço os “offs”, quando tem, no local mesmo.

Eu fecho a porta do carro e solto: “agora editor, atenção! Isso aqui é um ‘off’ para entrada, e para você cobrir aqui com uma imagem assim”. E funciona, porque, é claro, são matérias longas, e são matérias que o profissional tem um dia para editar, e não um negócio que o câmera chega com a fita – e não vai ser mais fita daqui a pouco -, para dali uma hora estar no ar. Então, acho que esse formatinho de matéria, acaba funcionando porque eu sou muito espontâneo mesmo, eu não preparo e nem escrevo o texto – é raríssimo eu escrever qualquer coisa para falar -, e isso a ‘escola do Rádio’ é quem dá.

Você me coloca para apresentar qualquer programa de televisão hoje, eu apresento sem texto, porque – de novo -, o Rádio te dá esse traquejo, e eu gosto muito de fazer o Indiana Gomes sim! Eu acho um barato, e eu estou vendo coisas que eu gosto, que eu conheço. E aí, diferente do futebol, você me solta para falar de qualquer carro, eu falo e com muita naturalidade... porque é o meu ‘metiê’, é o meu mundo, meu universo.


30) Você ao menos pesquisa coisas antes das matérias?

Não muito, depende. As vezes, algumas datas, ou numero de produção... mas eu pesquiso, porque ninguém tem isso na cabeça, tirando o PVC (Paulo Vinicius Coelho) e o Celso Unzelte, ninguém sabe essas coisas de cabeça (risos).

Então, é claro, se eu vou fazer uma matéria sobre “Fenemê” (FNM), eu dou uma pesquisadinha – e hoje se tem tanta facilidade para pesquisar -, você vê lá quando surgiu, quando parou... Mas, em geral, eu estou muito familiarizado com o assunto. Não tenho muita dificuldade.


31) Flavio, você já disse em outras entrevistas, que não é muito chegado a “mensagens finais”, mas eu pediria que você deixasse uma mensagem para os leitores do site Bastidores do Rádio.com:

O Rádio, é o veículo mais “assassinado” da história da comunicação. O Rádio “morreu” quando surgiu a televisão, e o Rádio iria “morrer” de novo, agora quando surgiram as Web Rádios. O Rádio iria morrer com a internet. Mas na verdade o Rádio é o grande “Highlander” da comunicação, o Rádio é o grande imortal. Porque, o Rádio, ele tem uma coisa que outros veículos não tem, que é gente falando.

Hoje nós vivemos num mundo onde as pessoas cada vez mais se isolam, e você pode ate ter a sensação de que quando você esta diante de um computador você está conectado com o mundo inteiro. Mas na prática, você não está falando com ninguém. Você está teclando, você está mandando mensagens, ou está lendo mensagens. Você está no Facebook, você está no Orkut, você está no MSN, mas você não tem a voz de ninguém no teu ouvido.

Você não está conversando, não está verbalizando nada. E o Rádio, é o único veículo que faz só isso: que te leva a conversar com alguém. Você quando está entrevistando alguém no Rádio, você precisa conversar com pessoa. Você não tem uma imagem para te dar apoio, você não tem nenhum recurso em “3D”, pop-up, nada! É voz, pura e simplesmente.

Então, o Rádio, ele é a essência da comunicação. O ser humano se distingue de uma lagartixa por quê? Porque fala um com outro. Nós nos comunicamos falando. E a linguagem, é o que nos diferencia do resto do mundo animal. E o Rádio é essência. O Rádio é isso: é linguagem, é falar! E mais do que isso, é estimular a imaginação das pessoas, porque quando você está ouvindo Rádio, você não tem nenhum outro estímulo visual, tátil, nada. Você transforma som em imagem, na sua cabeça.

E a velocidade do Rádio: a velocidade de informar, o companheirismo do Rádio... em uma cidade grande como São Paulo, o que as pessoas fazem, quando passam duas, quatro horas dentro de um carro: ouvindo Rádio. Seja ouvindo uma música, seja alguém falando ou uma entrevista, um comentário, um papo-furado, uma oração... Então, o Rádio é o grande companheiro, quando você está sozinho. E a gente não joga um companheiro fora.
 
Obrigado.