CLAUDIO CARSUGHI


Entrevista realizada por Emilcio Rogério Zuliani, dia 29 de Julho de 2011, na sede da Rádio Jovem Pan na Av. Paulista.
FOTOS: Álvaro Aiose Junior.



Italiano de nascença e brasileiro de coração, Claudio Carsughi desembarcou em terras tupiniquins em meados de 1948. O que era para ser uma estada de um ou no máximo dois anos, acabou se tornando a segunda pátria na vida dessa verdadeira lenda do Rádio brasileiro.

Respeitosamente chamado de “mestre” por seus colegas de trabalho, Claudio Carsughi conta na agradável entrevista que concedeu ao nosso site, sobre curiosidades de sua vitoriosa carreira, inicio no Rádio e na Rádio Jovem Pan, sobre suas passagens por outras emissoras, do seu retorno a Jovem Pan. Conta também sobre histórias marcantes vividas com outros companheiros no Rádio, sobre sua paixão por automobilismo, além de seus trabalhos em jornais, revistas e televisão.

Para os amigos do site Bastidores do Rádio, um pouco da história de Claudio Carsughi, um grande nome da história do Rádio:

 

BdoR.: Para iniciarmos, gostaria que você se apresentasse aos nossos leitores:
Claudio Carsughi: Eu nasci há muito tempo atrás (risos). Em 13 de outubro de 1932, numa pequena cidade da Toscana (Itália) chamada Arezzo. Logo depois, com 5 anos de idade, minha família se mudou para Firenze (em português, “Florença”), e que é de certa forma minha cidade referência, onde tenho os meus amigos, onde tem o time de futebol para qual eu torço – que é a Fiorentina - , para onde eu volto todos os anos para rever meus amigos, para viver um pouco com eles. E depois da (2ª) Guerra nós viemos ao Brasil, eu concluí aqui os meus estudos comecei paralelamente a trabalhar como jornalista e como engenheiro. Aí cheguei à conclusão de que como jornalista, era muito mais divertido. Na época, o ganho era mais ou menos o mesmo. Mas, como jornalista, eu vi a possibilidade de conhecer uma porção de gente, ter contatos, viajar. Coisa que como engenheiro – pelo menos naquela época -, ou você tem um bom capital para poder abrir sua própria firma, ou você vai ser sempre um empregado por ai. Pode até ser empregado importante, diretor e tal, mas no fim, a capacidade de direcionar aquilo que você quer fazer, comparando com a possibilidade que eu tenho agora de fazer realmente o que quero, eu não teria tido. Então eu continuei a trabalhar no Rádio – antes do Rádio eu havia trabalhado em jornal.

Eu tinha feito por exemplo, a cobertura da Copa do Mundo de 1950 para o “Corriere dello Sport” de Roma, aqui no Brasil. E foi nessa Copa do Mundo que eu comecei a conhecer todo o pessoal aqui da Rádio (Jovem Pan, antes Panamericana): o Narciso Vernizzi, que foi que me trouxe aqui para a Pan; o Blota (Junior); o Pedro Luiz; o Mário Moraes, e enfim, todos aqueles nomes famosos da época.

Comecei a trabalhar aqui na Jovem Pan, em 1960, fui para a Rádio Bandeirantes, voltei em 1963 para o Grupo “Emissoras Unidas”, então pela Rádio Record. Esse era o Grupo que tinha a Rádio Record, a Rádio Panamericana, a Rádio São Paulo e a TV Record. Comecei a fazer alguma coisa para TV também, porque era do mesmo grupo, e quanto à (Jovem) Pan estou desde então aqui, considero que esta é minha segunda casa. Recebi ao longo da minha carreira várias ofertas para mudar de Rádio, mas nunca me interessei e realmente não me veria com outro microfone que não fosse esse branco e vermelho da Pan.

BdoR.: Você citou que é formado em engenharia. Em que ramo da engenharia?
CC.: Civil.

BdoR.: Mas conte para nós como foi que surgiu a primeira oportunidade para exercer de fato o jornalismo.
CC.: Surgiu de uma forma muito simples. Quando chegamos ao Brasil – aí vem uma história muito comprida e eu absolutamente reduzirei ao mínimo - a idéia era ficarmos aqui um ano e voltarmos à Itália, porque meu avô tinha que acertar uma série de negócios que ele tinha aqui. Burocracia que existe no mundo todo, fez com que esse prazo de um ano fosse para dois anos. E quando era o momento de voltarmos para a Itália, a Itália estava a beira de uma guerra civil. A Guerra Fria estava começando, e existia o temor de uma 3ª Guerra Mundial. Então, resolveu-se ficar aqui. Mas desde que eu cheguei aqui, minha grande preocupação era não perder o contato com o “italiano”, porque eu tinha parado meus estudos lá, tinha “fechado” a matrícula e ia voltar para lá. Então meu pai teve a idéia – já que ele era amigo dos diretores do “Corriere dello Sport” de Roma – e disse: porque é que você não escreve? Para eles tem o interesse, porque daqui a dois anos teremos a Copa do Mundo aqui no Brasil – isso foi em 1948 -, pode ser uma coisa interessante e tal, fazer matérias mais amplas, de como é, como se vive aqui – porque naquele tempo o Brasil era algo semi-desconhecido na Europa. Não havia o contato que se tem hoje, e eram raríssimos os brasileiros que viviam na Itália. Então era uma coisa assim meio “fantasmagórica”. E eu me lembro que eu fiquei com a idéia, e disse: bom, eu vou escrever como alguém que está contando as coisas, como o barbeiro que me cortava os cabelos. Então o leitor médio era para mim alguém que não sabia absolutamente nada do Brasil. Então você podia contar como era o Pão de Açúcar, como eram as praias, os costumes diferentes.

Uma coisa por exemplo me chamou logo a atenção, foi a absoluta cordialidade do povo brasileiro. Se você chega aqui, você conhece alguém, e provavelmente o cara diga “apareça lá em casa” e tal. E isso na Itália, e na Europa é absolutamente impossível. Talvez, depois de muito conhecimento, alguém te convide para tomar café depois do jantar na casa dele. Mas olhe lá, sabe? Então, isso me chamou a atenção, mas foi também uma das coisas que eu deixei bem claro nessas minhas matérias, essa diferença de coisas. Claro, dos dois lados: porque o cara te diz “apareça lá em casa”. Mas o que você espera é “quarta-feira às 18 horas, venha jantar em casa”. “Apareça lá em casa” é uma coisa assim, absolutamente vaga, como aquele que te pergunta: “oi, como é que vai?” Mas ele não se interessa saber como vai, é apenas uma forma coloquial. Mas enfim, essas características eu achava que eram interessantes para dar ao meu leitor na Itália, essa visão de um país completamente diferente, apaixonante sobre todos os pontos de vista, tanto que eu conheci – e isso eu sou grato à Rádio – muitos países no mundo, e de todos os países estrangeiros que eu conheço, o Brasil é o melhor para se viver. Isso é absolutamente indiscutível. Melhor do que aqui, só na minha casa (risos).

BdoR.: E a receptividade dessas suas matérias na Itália, como foi?
CC.: Foi muito boa! Foi boa porque eu estava mostrando uma coisa desconhecida. Então havia curiosidade, havia o interesse, naquele “boom” que teve na Itália pós-guerra... era uma população jovem que tinha muita vontade de viver, de esquecer e deixar para trás todas as penúrias e dificuldades que tiveram durante a guerra e queriam realmente viver. Então com isso, qualquer novidade – é claro que de mil leitores, talvez “um” tivesse condição de fazer umas férias aqui no Brasil – mas os outros 999 serviam-se daqui para sonhar eventualmente – “um dia, se eu ganhar na Loteria Esportiva, vou para Copacabana”... E o Rio era o grande sonho de todo mundo. E aliás uma coisa gozadíssima: nós viemos ao Brasil, e ficamos um tempo no Rio, num apartamento lá em Copacabana. E quando eu vim para São Paulo, eu senti uma falta imensa do mar, porque eu gosto muito do mar. E ai eu perguntava para o meu avô: “Mas o Rio é tão melhor. Por que não ficamos lá e viemos para São Paulo?” (risos) E ele respondeu: “Meus negócios estão aqui, tudo está aqui. Aquilo foi só para rever os amigos que tenho no Rio e tal, mas vamos ficar aqui”.


BdoR.: Por curiosidade, para que bairro de São Paulo vocês vieram?
CC: Para aqui perto de onde está a Rádio (Jovem Pan) agora. Aqui, quase na esquina da (Avenida) Brigadeiro (Luiz Antonio) com a Avenida Paulista. E eu me lembro que a noite, nós saíamos depois do jantar com meu pai para andar um pouco e fazer a digestão, e você saía como estava vestido. Não é como hoje que você tem que por uma roupa velha, tirar o relógio e deixar a carteira em casa. Saíamos normalmente e ficávamos passeando.

Me lembro que minha minha mãe e minha avó, iam com minha tia tomar chá no “Mappin” (Praça Ramos de Azevedo, centro de São Paulo). E não iam de carro, iam de ônibus! Iam com o ônibus “Avenidas”, número 13, que passava aqui na Paulista. Pegavam o ônibus que ia lá, e desciam em frente ao Teatro Municipal, tomar chá. E não que fossem com jeans e outras coisas...vinham com taier, vinham com jóias, e com tudo. Era realmente um Brasil e uma São Paulo diferentes. Você não tinha essa miséria grande que infelizmente se tem hoje.

Mesmo o mais pobre tinha o terno dele, a camisa, a gravata, eventualmente o chapéu – naquele tempo se usava muito chapéu – eu me lembro de um “jingle” que tinha na Record,- só não me lembro o nome do chapéu - que era o “chapéu dos 50 milhões”, porque naquele tempo o Brasil tinha 50 milhões de habitantes e hoje tem 190 quase. E só concluindo o assunto, eu fiquei muito contente na Copa de 1950, em função de todas essas matérias que eu tinha feito, o jornal ao invés de mandar duas pessoas, mandou só uma – veio só o diretor -, e eu fui o auxiliar, correspondente dele aqui.

BdoR.: E aí você começou na Rádio Jovem Pan logo depois disso?
CC.: Sim, eu comecei na Jovem Pan por uma razão absolutamente econômica. Era Rádio Panamericana S/A na época, conheci o Narciso (Vernizzi) e tal – e eu queria claramente me manter em contato com a Itália, e a única forma que se tinha naquele tempo, era se ter um bom Rádio profissional de ondas curtas. E eu me lembro que tinha na cidade uma loja perto do Largo São Bento, que tinha Kraft americano... o único que tinha... e custava 12 mil da moeda daquela época, que nem lembro qual era, e claramente aquele Rádio para mim era um sonho impossível. Porque o valor era praticamente a metade do custo de um carro. E ai, na Pan tinha! E eu fiz amizade e acertei com o Narciso: “Olha, eu venho aqui, ouço o campeonato italiano, e depois deixo para vocês os resultados, a classificação, e alguma coisa a mais... E aí começou a engrenar, até que fui contratado.

BdoR.: Como é que foi percebido essa veia de crítico? Isso já era latente desde o início da carreira? Já se percebia que você tinha esse lado mais de crítico do que de jornalista, em si?
CC.: Sim, para mim sim. Eu sempre vi – embora goste, gosto até hoje – mas eu sempre vi o futebol de uma forma meio crítica, entendendo que é um jogo, um jogo que tem tantas contingências: a bola que bate no poste entra e você é campeão ou a bola que bate no poste sai e você perde. É o caso da Holanda contra a Argentina na Copa de 1978, a bola do Rosembrick no último minuto, bater no poste e voltar. Se entrasse, a Holanda teria sido campeã.

Então, ao invés eu me apaixonava muito mais pelo automobilismo – sobretudo pela Fórmula 1, pelo seu conteúdo tecnológico. Inclusive eu brinco ainda hoje com o pessoal, e digo: “olha, a grande diferença é que no futebol você tem 20 marmanjos – porque os goleiros ficam parados – de cueca correndo atrás de uma bola e ainda estão discutindo agora, como o supra-sumo da tecnologia, se vão por um chip na bola para saber se ela entrou ou não. No automóvel, você tem “um mundo” de tecnologia.

BdoR.: Você sempre atuou na área esportiva? Nunca trabalhou com “geral” ou comentários de política?
CC.: Eu tive um convite, um convite muito bom – tanto do ponto de vista profissional, como do ponto de vista econômico – da Rádio da Suíça Italiana. É que eu tinha feito amizade com o pessoal de lá: um pouco porque eu gosto muito da Suíça, e eu até brinco dizendo que a Suíça é uma Itália que deu certo; e um pouco porque tinha o Clay Regazzoni (ex-piloto de Fórmula 1). E eu conhecia o pai dele, que tinha uma oficina no caminho que vai de Como (Itália) para Lugano, que é um trecho que eu faço sempre indo para a Suíça. E um dia o pessoal da Rádio chegou e disse: “olha, nós queríamos ter um correspondente aqui no Brasil, e na área esportiva não interessa muito. Queríamos mais geral e tal...” E eu disse “tudo bem, mas como vai ser?” e começamos a discutir o preço, o valor tava muito bom. Eu disse: “ah, tudo bem eu topo”. E isso era durante um Grande Prêmio Brasil. E disseram: “voltando lá para Lugano eu te mando já a primeira pauta”. Quando chegou a primeira pauta – isso era durante a ditadura militar – eles queriam: uma entrevista com o (Carlos) Marighella; queriam que eu descobrisse onde tinha ido parar aquele deputado - não sei das quantas - que sumiu no Rio... Paiva... (Rubens Paiva); queriam mais três entrevistas da oposição, de uma facção mais moderada e queriam declarações do Governo. E eu respondi: “eu estou aqui no Brasil, pretendo ficar aqui. Se eu tivesse idéia de daqui a dois meses ir embora, eu faria com muito prazer, - porque era uma coisa apaixonante -. Mas pô, vocês me desculpem, mas não vai dar pé!”

E aí depois, em 1989, eu fui contratado pelo “La Stampa” (www.lastampa.it) – eu era correspondente do “Tuttosport” (www.tuttosport.com) e saí, fui pro “La Stampa”. Inclusive eu brinco dizendo que é a primeira vez que eu estou num jornal sério, e não só de esportes – e eles queriam alguma coisa também de economia, e tanto que eu faço para eles, sobre a indústria automobilística brasileira.

BdoR.: Quais os programas de Rádio que você já fez, ou participou, que mais lhe agradou e que vem sempre a memória?
CC.: Eu não tenho um programa assim, específico. Eu gosto muito de Fórmula 1, e então, gostava muito dos programas que apresentava junto com o Wilson Fittipaldi – o Wilsão (ou Barão), gosto desse “Fórmula Jovem Pan” que fazemos aqui, e tem outros programas dos quais eu não participo que me agradam. Por exemplo, eu gostava muito do “Show de Rádio” do (Estevam) Sangirardi – achava um “sarro” aquilo, muito divertido -, exatamente porque se ligava um pouco a essa minha idéia de não se levar o futebol tão a sério. Entender o futebol como uma brincadeira, como um jogo... mas enfim, não é uma questão de vida ou morte.

BdoR.:Citando a Fórmula 1, você já trabalhou fazendo reportagens na Fórmula 1 ou sempre fez comentários?
CC.: Reportagens, em algumas raras vezes, sobretudo na época da (equipe) Coopersucar, porque ai eu tinha um acesso muito fácil pelo pessoal... então ai eu fiz alguma coisa. Mas pouca coisa. Normalmente eu prefiro o comentário.

BdoR.: Sobre sua carreira no Rádio: você já fez uma citação de que começou na Jovem Pan em...
CC.: Oficialmente, com registro e tudo, foi em 1958.

BdoR.: Depois você saiu para a Rádio Bandeirantes...?
CC.: Saí em 1960, e fiquei três anos na Bandeirantes. De 1960 a 1963, o que é inclusive uma lembrança extremamente agradável, porque naquele momento, a Rádio Bandeirantes tinha uma das maiores equipes que o Rádio brasileiro já teve: O Pedro (Luiz), o Edson (Leite), o Mário Moraes, o Mauro Pinheiro – que foi meu caríssimo amigo -, uma porção de outros locutores: o Braga (Junior), o Darcy (Reis), o Flávio (Araujo). E repórteres: o Silvio Luiz, o Ethel Rodrigues, enfim, e era uma audiência assim de 90 a 1, né? Então você inclusive, tinha que tomar muito cuidado com aquilo que você falava, porque “a caixa de ressonância” era enorme, e não só em São Paulo, fora também.

Me lembro uma vez, isso já praticamente quando estava saindo de lá, e tinha visto – não me lembro como – um jogo do Náutico no Recife. E eu disse “olha, realmente estranho a forma como esse time corre 90 minutos. Para mim tem alguma coisa.” Você não imagina o que os caras “chiaram” lá! “Mas ó... está falando que são dopados...!” Eu não falei que são dopados, eu falei que estranhei! (risos) O cara corre que nem um louco... isso não é tão normal assim (risos). Deve ter um preparador físico excepcional, e acho inclusive que ele deveria ir para a Seleção Brasileira, porque se ele faz correr os caras assim, vai ganhar de todo mundo com um pé nas costas (risos)!

BdoR.: Aí você foi contratado de novo pelo mesmo grupo da Rádio Panamericana?
CC.: Aí eu fui contratado pela (Rádio) Record. Na Record ficamos de 1963 – a nossa estréia foi no Maracanã, naquele jogo Santos x Milan (decisão do Mundial Interclubes, em 14 de novembro de 1963) – e ficamos até 1966, quando a Record deixou de fazer esportes, então passamos para a Pan.

BdoR.: O locutor daquele jogo (Santos x Milan) quem era?
CC.: Era o Braga Junior. Ele e o Darcy Reis eram os dois locutores, o Orlando (Duarte) era o comentarista principal – que foi quem arquitetou toda a nossa saída lá da Bandeirantes -. E aliás teve um caso curiosíssimo lá na Bandeirantes – são aquelas coisas inconscientes que se faz quando se tem 20 ou 30 anos, e que hoje jamais faria uma coisa dessas, pois eu é que acharia ridículo.

Mas estávamos discutindo lá na (Rádio) Bandeirantes a nossa saída, com a direção da casa. E ai vai, discute, “não...porque vocês têm contrato, e tem que pagar multa, etc e tal...” (risos) a uma certa altura, eu saco o talão de cheques e digo: “quanto é essa multa, te faço o cheque e liquidamos o caso!” (risos). E acabou a reunião ali.

BdoR.: Você citou no começo da entrevista que a Jovem Pan é a sua segunda casa, e até pelo tempo de permanência, dá para se perceber. Você poderia dizer quais são os motivos que trazem essa sincronia entre vocês?
CC.: Acho que é o respeito mútuo com o Tuta (Antonio Augusto Amaral de Carvalho, dono da Jovem Pan). Houve um momento em que eu resolvi – e pedi para o Tuta, ele aceitou -, que eu não faria mais futebol, e que ia fazer só Fórmula 1. Depois de um determinado momento, o Tuta me chamou, numa situação da Rádio, e queria que eu voltasse a fazer futebol. Ok. Acertamos, e eu voltei a fazer futebol. Mas não assinei contrato nenhum. Meu contrato foi um aperto de mão! Acho que uns seis meses depois que o cara do Departamento Pessoal falou: “olha, tem que assinar um contrato, porque amanhã chega uma Delegacia do Trabalho, e faz uma verificação sobre o meu trabalho, e ai não tem nada sobre o que te pagamos...” Eu disse “ah, está bom, faça ai que eu assino”. Mas enfim, esse relacionamento que prezo muitíssimo e que me deixa realmente à vontade.

Não que os outros lugares sejam ruins: da Bandeirantes eu tenho uma excelente lembrança, da Globo onde eu trabalho – pelo SporTv – também eu gosto muito, e eu até um tempo atrás, eu tive que operar a vesícula, e os caras lá disseram “se precisar de alguma coisa, e tal...” E eu falei: “Não, obrigado, está tudo sob controle”... Mas é uma coisa mais impessoal, digamos, puxado para o extremo. Não com todos, é claro, mas puxado do extremo: lá eu sou um número: sou o cara dezessete mil e não sei quanto. Aqui eu sou o Claudio Carsughi.

BdoR.: E no meio de toda essa história, como foi que surgiu a paixão pelos automóveis?
CC.: Ah não, isso já existia muito antes. Isso foi desde criança. Quando eu estava na Itália, ainda um garotinho – uns 3 anos ou 4 – eu me lembro que levantávamos de madrugada para ir com meu pai para vermos a passagem – lá perto de Arezzo, numa montanha lá perto – daquela corrida “Mille Miglia”.

Depois, muitas vezes meu pai me levou para Monza, para ver o Grande Premio da Itália. Então é uma coisa que, antes de gostar de futebol, eu já gostava de automobilismo. Sempre com essa visão de “como é que funciona o negócio?”... Se você vai botar gasolina de uma lado, e você anda do outro...(risos).

BdoR.: E continuando neste contexto, qual foi a primeira transmissão de automobilismo que você participou?
CC.: Agora não me lembro... Mas deve ter sido alguma coisa em Interlagos. Certamente em Interlagos com o Wilson (Fittipaldi).

BdoR.: E a primeira transmissão de Fórmula 1?
CC.: Aqui na Rádio também. Foi quando começamos a fazer Fórmula 1. Porque nós começamos mais ou menos quando o Emerson (começou)... Eu me lembro que apresentei na (TV) Record um breve filme do teste dele com Fórmula 1, acho que foi em 1969... eu não saberia dizer.

BdoR.: Mas até então, não havia transmissões de Fórmula 1? A Panamericana foi a primeira?
CC.: Sim foi. Haviam informações. Eu sempre colhia dados, e coisas para falar. Mas naquele momento a Fórmula 1 aqui no Brasil, você tinha: 10 linhas na segunda-feira, dando os cinco primeiros (colocados) e acabou!

Eu me lembro por exemplo: em 1966 eu estava na Itália, e eu fui para Monza, fiz uma matéria – porque eu trabalhava naquele tempo também no Jornal da Tarde, com o Mino Carta -, e fiz uma matéria para eles, mandei um material para a Rádio, e não tinha nenhum brasileiro. Tinha um cara da Argentina, e ainda tinha sobrado lá da época do (Juan Manuel) Fangio (argentino, pentacampeão na Fórmula 1), e assim mesmo gravando, não fazendo nada ao vivo.

BdoR.: Em 1950 (ano do primeiro campeonato da Fórmula 1), você estava aqui no Brasil, também trabalhando como correspondente. Mas acompanhou a Fórmula 1 desde o início?
CC.: Sim! E inclusive todas as vezes que eu podia, que estava na Europa, eu ia lá acompanhar. Por exemplo: uma lembrança que eu tenho – inesquecível -, em 1957 em Nurburgring (Alemanha), foi a vitória do Fangio. Porque eu acho que foi a maior corrida da vida dele, e ele também entendia isso. Me deu uma vez uma entrevista no Rio, anos depois, e ele também achava que tinha sido a maior corrida da vida dele, e que ele ganhou um campeonato com um carro que era inferior.

Ele tinha um Maserati, mas a Ferrari era melhor. Aliás, essa é uma das razões que me levam a considerar Fangio – desde que começou o Campeonato Mundial -, como o maior de todos.

BdoR.: E sendo Nurburgring um dos maiores circuitos em extensão da Fórmula 1 original (22 km), quanto tempo em média demorava uma volta?
CC.: Nove minutos. Depois descia para oito e pouco... Mas para se ter uma idéia, - o reabastecimento -, eu lembro que, os mecânicos da Alfa (Romeo) fizeram uma aposta com o Fangio, de que eles conseguiriam fazer o reabastecimento em “30 segundos”. É, porque era ainda... abria-se a tampa, colocava um “negócio” assim, e se jogava galão por galão (risos). Trinta segundos: se enchia o tanque, trocavam as quatro rodas e era um troço fabuloso! Normalmente se levava quase um minuto.

BdoR.: Mudando um pouco o assunto, por que é que você utiliza um sistema de notas para os jogadores, de uma maneira tão “fracionada”?
CC.: Para poder estabelecer uma diferença entre um e outro. É a mesma coisa que eu introduzi em (Revista) 4 Rodas – quando eu passei a Editor de 4 Rodas... - porque quando eu cheguei lá na revista, tinha quatro coisas: era só “Ótimo”, “Bom”, “Medíocre” e “Ruim”. Eu disse “que é isso gente?” E o que é que acontecia? Fechava-se praticamente entre “medíocre” e “bom”. Não era nem o “’ótimo”, e nem o “ruim”. Eu disse: “precisamos dar uma idéia mais clara!” Aí eu consegui depois de muita luta fazer as notas de 1 a 10.

Eu sempre “bati” – e isso eu recebia uma forte posição, sobretudo comercial -, de que se você faz um teste comparativo, você tem que dizer no fim “esse é melhor do que esse, por isso, por isso e por isso!” Pega as revistas americanas – Test Drive, etc -, elas já te jogam no título: “A Ford em tal coisa, é melhor que a Chevrolet em tal...” E olha: os interesses comerciais são bem maiores do que aqui, ainda mais naquele tempo. E as repostas: “ah sabe como é, como não é... o anunciante não tem essa cultura... se você disser que é ruim...”. E havia pressão inclusive dos fabricantes.

Eu me lembro uma vez, que a 4 Rodas fazia aqueles testes de longa duração – no começo eram 30 mil (quilômetros), e depois aumentaram. Quando lançaram o Dodginho 1800 (Polara), foi uma “desgraça” aquele teste! Só não quebrou o distintivo, porque do resto quebrou tudo! E se publicou o teste inteiro (com os defeitos), sem problemas (com o fabricante), sem nada. E eles (Chrysler, o fabricante) reconheceram que tinha sido um lançamento apressado. Inclusive uma vez, um dos diretores me disse: “nós recebemos pressões da Matriz que tinha que lançar, que tinha que lançar, e lançamos. Teríamos necessidade de mais um ano para arrumar o carro”. E lançaram uma segunda versão e eu fui buscar o carro. Fui buscar o carro. O assessor de imprensa estava lá, e disse: “O nosso diretor quer falar com você”. Tudo bem, eu fui lá... E o diretor começou uma conversa: “ah, sabe... pra nós é muito importante um bom teste, porque tivemos um ‘baque’... a nossa posição junto à matriz ficou um pouco delicada, e eu tenho a certeza de que o carro é muito bom, e eu sei que você vai gostar, e tal e coisa... Aliás, que carro você tem???” E eu tinha um Karmann Ghia naquele tempo. E eu falei: “Ah, eu tenho um Karmann Ghia”. Ele respondeu “Você não gostaria de trocar, de ter um Polara?” E eu falei: “Olha, desculpe! Se o carro for bom, eu vou falar bem. Se o carro for ruim, eu vou falar mal. E eu não quero o Polara, porque estou muito satisfeito com meu Karmann Ghia. Até logo, passe bem” (risos).

BdoR.: Quando e como surgiu esse 'atributo' de lhe chamarem de “Mestre”?
CC.: Isso foi o Milton Neves. Eu acho 'engraçado', mas tô acostumado... já que pegou, tudo bem.

BdoR.: Mas você entende esse título como uma forma de respeito e carinho dos outros profissionais...
CC.: Sim, eu entendo desta forma, senão seria ridículo. Eu não sou chefe de uma Loja Maçônica nem nada, pra me chamarem de “Mestre”...(risos).

BdoR.: E com isso, nós que estamos do outro lado do Rádio, percebemos o quanto você é respeitado. E você tem muitos inimigos dentro do jornalismo?
CC.: Nenhum! Eu nunca briguei com ninguém, e por uma razão muito simples: eu me convenci já há muitas décadas, que você nunca vai fazer ninguém mudar de opinião. E se por acaso você conseguir, você não vai ganhar nada com isso. Então é como se diz em italiano “fiato sprecato”... é palavra perdida. Não adianta nada. Então, se você acha “isso”, tudo bem. Eu acho “aquilo”. Desde que você respeite, e fique dentro dos padrões de civilidade, de relacionamento normal.

Por exemplo, uma coisa que fiquei abismado, que eu não pensei, foi quando eu comecei o Blog (http://blogs.jovempan.uol.com.br/carsughi) – que eu tenho aqui na Pan -, eu escrevia basicamente sobre Fórmula 1 e futebol. Fórmula 1 tudo bem: os caras dizem, contestam, discutem, normal. Mas sobre futebol, chega – eu não digo todos, mas um porcentual não tão pequeno como pensei, deve chegar no mínimo - a uns 10% ou 15%, de ofensa pessoal. Tanto que depois de um pouco eu disse “mas olha que vou largar esse troço, não vou fazer mais...” É uma cambada de semi-analfabetos, porque você vê como escrevem o português, e absurdamente ofensivos. E raramente o cara põe o nome: põe sempre um apelido, um código, tal.

Qual é o problema de achar que o Corinthians é melhor que o São Paulo? E você acha que sou um imbecíl e daí para baixo... Filho da... e tudo mais!!!

Veja, o Flávio Prado não responde a ninguém. Eu, talvez tenha errado no começo, porque eu parti do ponto de vista, que se alguém se dá o trabalho de escrever, merece uma resposta. Por uma questão de educação. Que eu acho que, cada 50 que lê, só 1 vai te escrever. Então, esse perdeu tempo, ligou o computador, e merece uma resposta. Mas quando chega nesse nível, sabe, não tem como, não tem diálogo!

BdoR.: Você citou o Milton (Neves), e desde que ele trabalhava aqui na Jovem Pan – e ainda hoje na Bandeirantes – ele diz que em todas as festas que ele "era ou é" convidado, ele "manda" o Odoardo Carsughi para representá-lo...
CC.: Ele é meu filho.

BdoR.: E ele (Odoardo) trabalha com jornalismo?
CC.: Graças a Deus, não. Ele fez algumas coisas em jornalismo, mas foi só para ganhar um dinheirinho quando ainda era estudante. Ele é formado em Engenharia Mecânica. E nós somos amigos da família do Milton (Neves), da mulher dele... Então ele tem esse conhecimento com o Odoardo, com a Cláudia (filha)...

BdoR.: Você já fez a citação de sua passagem marcante pela Revista 4 Rodas. Que outras revistas você trabalhou?
CC.: Bem, eu trabalhei quase vinte anos em 4 Rodas. Antes eu tinha trabalhado durante seis meses em “Placar” – que aliás foi uma experiência “chocante”. Foi entre 1971 ou 1972. Foi uma experiência “chocante”, porque eu trabalhei como secretário de redação, e tinha uma pressão do então diretor da revista, para mandar embora dois ou três funcionários da revista – que eram meus amigos. Eram o Zé Maria de Aquino e o Michel Laurence... E eu falei: “Pô, são meus amigos! Eu trabalhei até outro dia junto com eles no Jornal da Tarde. Eu não vou fazer isso”. Então foram seis meses realmente muito ruins. Mas, enfim... Hoje eu entendo que aquilo não devia ser idéia dele. Devia ser pressionado “por cima” para reduzir custos, ou sei lá. Ou qualquer outra razão.

E entre Placar e 4 Rodas, eu trabalhei no “DDOC”- Departamento de Documentação da Editora Abril -, e daí é que fui para 4 Rodas. E 4 Rodas foi uma experiência muito gostosa, acompanhando aquele momento de grande progresso da Indústria Automobilística, onde você saía de “restos” de projetos já deixados de lado nos Estados Unidos e na Europa, para coisas mais modernas. Como quando chegou o “Passat”, quando chegou o (Fiat) “147”, quando chegou o “Monza”, enfim...

E quando saí de 4 Rodas, eu fui trabalhar na (Revista) Oficina Mecânica – que também foi muito bom! – Depois de um certo momento, um pessoal da Oficina Mecânica e meu filho, falaram: “Vamos fazer uma revista, vamos fazer uma revista!” Eu resisti, porque achava que o negócio não ia dar certo. Todos nós (integrantes do projeto) somos jornalistas. Eu não acredito muito na parte comercial da coisa. Inclusive eu brincava: “Olha, só daria certo se tivéssemos o Milton Neves como diretor comercial. Porque ai, eu apostava que daria certo”. E depois de seis meses, meu filho e eu saímos. Meu filho me mostrou os dados, e eu disse: “Ainda está no ‘azul’. Vamos sair agora”. Ai saí, perdi um bom dinheiro.

BdoR.: O nome desta Revista era?
CC.: Esta era a Revista “Auto Técnica”, que continua até hoje.

BdoR.: Bem, você já citou que prefere muito mais comentar Fórmula 1, do que comentar Futebol... que não há nem comparação...
CC.: Eu faço essa divisão: Futebol, quase sempre, é trabalho. Por exemplo, ontem à noite eu comentei Vasco x Bahia. Um troço de “doer”. Eu não sei se foi uma noite particularmente infeliz dos caras, mas tem jogadores que parecem que não conhecem o “a-b-c”, os fundamentos do jogo. Em compensação na quarta feira, teve aquele Santos x Flamengo, que foi maravilhoso. Mas aquele foi exceção. Pra ter um jogo daquele, você tem que engolir uma série de coisas chatas. Fórmula 1 não. Fórmula 1 é divertido. Fórmula 1 me interessa.

Por exemplo, eu estive agora em maio lá em Maranello, na fábrica da Ferrari. E vi uma porção de coisas. Teve uma porção de coisas que me disseram. Algumas, claro, eu não posso trazer a público porque disseram em “off”, mas serve para eu ter um julgamento. Pra poder dizer: “eu acho que esse projeto está errado”. E eu sei porque, mas não posso dizer. Eu tenho um embasamento da coisa. Eu tenho por exemplo – todos os anos tenho longas conversas com ele -, meu amigo que mora em Pisa, e que é catedrático de aerodinâmica na Faculdade de Pisa. E vários alunos dele foram contratados ao longo dos anos pela Ferrari e trabalham lá. Então eu escuto – mais do que discuto -, fico ouvindo, faço perguntas e ele me dá uma aula explicando... Eu digo: “por que o ‘flap’ posterior é assim ou assado?” E ele diz: “por isso, por isso...” Inclusive, ele procura explicar da forma mais simples possível, para depois eu poder traduzir isso aos ouvintes. Não adianta você fazer um tratado de aerodinâmica, que quatro engenheiros vão aproveitar, e 99,9 % dos ouvintes vão dizer: “Bom, e daí? O que é isso?” (risos)

BdoR.: Por essa experiência anterior, e por gostar muito de automóveis, nós tivemos a informação e vimos em vários vídeos, que você é um exímio piloto. Você já disputou alguma coisa “valendo’”?
CC.: Não, não. Nunca, nunca!! Nunca tive essa pretensão, e acho isso uma pretensão “boba”. Acho ridículo os cara que dizem: “esse cara na Fórmula 1 é braço duro”. Porque o pior piloto na Fórmula 1, é milhões de vezes melhor do que qualquer um de nós. Isso é ponto pacífico.

O que eu gosto, e o que eu faço – isso com os meus carros e com tudo -, é ter o cuidado com a mecânica, não estragar o carro, ter a maior e a melhor relação custo-benefício, mais ou menos entender quando vou numa concessionária – bom... numa concessionária eu nunca vou. Porque eu acho concessionária um lugar onde há um “turnover” muito rápido de gente, e eles são pressionados pela relação custo-benefício, porque senão não há como a concessionária ganhar dinheiro. E o fato de você não poder estar lá vendo (o serviço), já me elimina. Então eu vou numa oficina, onde eu conheço, posso discutir... O cara diz: “Olha, vamos fazer isso?” Eu digo “por quê?” Ou então o cara me diz: “olha, a correia dentada aqui ainda dá para 5 mil quilômetros”. Ai eu vou ver, eu tenho uma fichinha arquivo de cada um dos meus carros, e ai digo: “Não, não. Vamos trocar agora que é melhor”. Porque se por um azar, ou por uma falha de material quebrar antes, vai me dar um prejuízo 10 vezes maior que se fosse fazer isso agora. Tanto que meus carros são todos “velhos”.

Eu tenho – é que esse acabei de vender para meu filho – uma BMW 12 cilindros de 1992, com 50 mil quilômetros; tenho um (Citroën) Xantia de 1994 e tenho um (Citroën) C5 V6, de 2004. E todos eles na base de 50 ou 55 mil quilômetros rodados. O carro que anda mais, era aquele que era da minha mulher e que minha neta usa agora, que é um (Honda) Civic, que está com 80 mil quilômetros, de 1988.

BdoR.: Ainda no assunto automóveis, você sempre deixou muito claro que a Ferrari é sua grande paixão. Já teve oportunidade de ter uma Ferrari, ao menos, usada ou antiga?
CC.: Não, não. Nem posso. Se morasse na Itália sim, teria. Aqui eu brinquei outro dia, voltando lá de Maranello, quando estive lá da última vez, chegou um cara e me deu a chave e “bom divertimento e me traz o carro à noite”.

Era a Ferrari Califórnia – aquela do vídeo (http://blogs.jovempan.uol.com.br/carsughi/industria-automobilistica/carsughi-dirige-a-ferrari-california) – e lá (na Itália), “raspando o fundo do tacho”, dava para comprar, porque sai mais ou menos 380 mil reais. É caro, mas enfim. Você pode dizer: “bom, no fim da vida vou me tirar uma satisfação, compro em prestação, ou quem sabe me faz um desconto”. E aí, dá pra fazer.

Aqui (no Brasil), primeiro, custa 1 milhão e seiscentos mil reais. Segundo, já saindo de casa, eu iria bater (embaixo)! Sim, é tão perto do chão, não tem como. E se você pegar um daqueles obstáculos, daquela lombada, conforme for, existe o perigo de você ficar no meio balançando. Além do que, mesmo nas melhores estradas brasileiras, você tem limite de 120 quilômetros por hora. Bom, andar a 120 numa Ferrari, não tem sentido.

Uma vez eu perguntei para um importador, lá da Via Europa, e disse: “escuta, mas como é que você consegue vender uma ‘coisa’ que não dá pra usar aqui?” É a mesma coisa que você querer vender um smoking, para um cara que vai para a praia. Ele respondeu: “é para o cara que gosta de ter”. Então você vê no sábado de manhã, o cara sai (com a Ferrari), dá uma voltinha na (Av. Brigadeiro) Faria Lima, vai tomar um aperitivo lá na Via Europa, e depois volta pra casa e esconde o carro.

BdoR.: E na televisão? Você já citou seu início na TV Record. Foi sua primeira experiência na TV?
CC.: Sim foi minha primeira experiência, depois eu trabalhei 8 anos na ESPN Brasil, e depois logo que eu saí da ESPN, os caras ficaram sabendo e me convidaram para trabalhar na Globo (no SporTv). Foi automático, eu saí de uma e entrei na outra. Aliás, foi muito gozado: aqui (na Jovem Pan), eu tenho contrato como pessoa jurídica, e pensei que era assim na Globo também... muito mais simples, a hora que você não quer mais manda embora. Na Globo disseram “não, não”. Inclusive, tive que ir procurar onde é que tinha ido parar minha Carteira Profissional, porque eu já estava aposentado. Ainda bem que não tinha jogado fora, senão ia dar um trabalho... e hoje eu sou funcionário da Globo.

BdoR.: Sem contar a passagem curtinha que você teve no Canal 16 (extinta Jovem Pan TV), não é?
CC.: Sim! Infelizmente não foi a frente, porque era uma coisa... Eu me lembro que nós fizemos em Campos do Jordão, a transmissão de uma prova do Mundial de Motocross. Foi muito divertido.

BdoR.: Algumas provas com a participação do Rubinho Barrichello na Fórmula 3000, com a narração do Nilson César também, não é?
CC.: Sim! Exato! Uma pena que não foi à frente, realmente, porque o projeto era de vanguarda, muito bem equipado. E teria tido essa relação de amizade com o dono, que é muito importante.

BdoR.: Voltando o assunto para o Rádio. Em 1990, você estava escalado para viajar para a Itália e comentar de lá a Copa do Mundo. E no final das contas acabou não indo. O que aconteceu naquela ocasião?
CC.: Aconteceu o seguinte: teve aquele Plano Collor, e a Rádio “assustou” um pouco, como foi normal... Então, resolveu-se reduzir os investimentos, e foi o Milton (Neves), só! Quer dizer, na possibilidade de escolha entre duas pessoas, escolheram o Milton. Tanto que depois eu tirei férias, e fui por minha conta, com meu filho.

BdoR.: No total, contando as coberturas dentro do estúdio e “in loco”, quantas Copas do Mundo já cobriu?
CC.: Participando daqui e “in loco”, todas - desde 1950. “In loco” eu fiz, aqui no Brasil em 1950, depois em 1970, 1974, 1978, 1982 e 1986. E hoje sinceramente eu não tenho mais nenhum interesse em ir, porque é um trabalho fora do comum.

Hoje você tem linhas abertas 24 horas por dia. Eu me lembro, por exemplo, na Copa de 1970, era uma maravilha. Porque tinham só três canais, e por isso tiveram que fazer “Pool” (de emissoras). Então era a Pan, Bandeirantes e Nacional (de São Paulo, hoje Rádio Globo), e você tinha determinados horários de transmissão. Tinha um horário que era no sábado pela manhã, das 8h às 8h30 – ninguém queria fazer, porque ninguém queria levantar cedo. Então eu falei “deixa que eu faço”. Aí eu fazia, e não tendo jogo – porque nós chegamos lá (no México) um mês antes de começar a Copa, eu estava livre até na segunda, porque no domingo não tinha nada. Então eu conheci o México pra cima, pra baixo.

Em 1986, se eu já não tivesse conhecido, eu só teria visto o hotel e a central de imprensa e Rádio... não deu pra fazer nada. Tivemos um dia de folga, onde o pessoal queria ir para Toledo, conhecer, e o Armando Marques (ex-árbitro) cortou minha folga porque o pessoal da TV francesa queria um jornalista brasileiro que soubesse mais ou menos falar o francês para uma mesa redonda. E ele deu a infeliz idéia de dar o meu nome: “Ah, o Carsughi é perfeito”... e ainda depois disse: “Olha, eu já me comprometi em teu nome!”. Poxa, no meu único dia de folga que tenho aqui, você me arruma para trabalhar? E ainda mais de graça? (risos)

BdoR: Uma grande curiosidade que eu e vários ouvintes temos: - Porque é que todo o mês de setembro você vai para a Itália?
CC: Pelo seguinte, julho e agosto fazem muito calor, é tudo cheio, é tudo mais caro e meus amigos (na Itália), não estão lá. Já me calhou uma vez que eu cheguei na Itália e comecei a telefonar: - "Ah, e o fulano de tal? Ele foi pro Quênia fazer um safári fotográfico" ou "Ah, ele foi para as Ilhas Gregas..." Ou então, "está não sei onde..." enfim, você não consegue encontrar ninguém. E durante o mês de setembro, não faz tanto calor, é mais fácil arrumar tudo e além do que, eu vou sempre nos mesmos lugares.

A única opção é que às vezes eu vou para Chamonix, e outras vezes não vou. Isso fica dependendo do tempo que eu tenho livre. Mas no final eu vou para a Itália e vou para a Suíça, e ponto final. Vou sempre nos mesmos hotéis. E isso quer dizer que eu não preciso fazer nada, só mando um e-mail dizendo: - "Me reserva a câmara tal e o lugar para o carro", e perfeito. Eu chego lá, está tudo a disposição, não tenho problemas nesta época do ano.

BdoR.: Qual foi a melhor equipe que transmitiu futebol que você participou?
CC.: Ah, a equipe de 1970 do Mundial (do México). Porque você tinha como locutores: Joseval (Peixoto), Fiori (Gigliotti), e Pedro (Luiz). Comentaristas: Mário Moraes, Mauro Pinheiro, Orlando (Duarte) e eu. E repórteres uma porção: Juarez (Soares), Blota Jr, o GB (Geraldo Blota), Flávio Araujo... Realmente tinham escolhido o “melhor do melhor”.

BdoR.: E a melhor equipe que você já participou transmitindo Fórmula 1?
CC.: Olha, eu sempre me dei muito bem com todos. Com o Wilsão (Wilson Fittipaldi), com o Domingos Piedade, com o Nilson (César), e agora com o Téo (José) – com Téo, com o Felipe (Motta), com o Christian (Fittipaldi) -, é maravilhoso. Cada um sabe o que fazer. Inclusive o Christian para mim foi uma agradabilíssima surpresa, porque ele se entrosou muito rapidamente. E cada um sabe quando o outro vai entrar, e até, às vezes já sabe até o que vai dizer. Então, é uma coisa bem automática. É muito bom.

BdoR.: E com os repórteres, você também sempre se deu bem, não é? Com o Cândido Garcia, com o Flavio Araújo...
CC.: Sim, sim. Aliás, eu tenho uma lembrança muito divertida do Flávio Araujo na Copa de 1970: Chegou um certo momento, o Brasil ia jogar contra o Uruguai, na semifinal, em Guadalajara. E nós estávamos lá. E a Itália ia jogar contra a Alemanha na outra semifinal. Então o Pedro (Luiz) me chamou e disse: “Claudio, eu estou com uma idéia: queríamos fazer os dois jogos.” Eu falei: “Poxa, mas não pedimos linha, não pedimos nada”. E o Pedro: “Não, mas eu conheço todo mundo, deixa...”

É que o Pedro tinha uma forma de convencer as pessoas muito simples. Por exemplo, antes de começar o Mundial no México, um dia antes, na Cidade do México, ele falou: “Flávio, vamos até o estádio”. E ele perguntou: “fazer o que no estádio se não tem ninguém?” E o Pedro: “Não, não. Você vai ver. Vamos lá.” Porque era eu quem guiava o carro.

Ai chegamos lá, fomos ver o estacionamento: “Ah, o estacionamento amanhã vai ser este? E quem é o responsável?” E a pessoa: “Sou eu, prazer, tal...” e 20 dólares na mão do cara. E ai continua: “Olá, eu sou o Pedro. Quem é o encarregado da cabine?” E o cara aparecia, e mais 20 dólares na mão do encarregado. E continua andando. “Quem é o engenheiro (de som) responsável?” e “ah, é esse aqui...” E ele sempre se apresentava dessa maneira: “Esse aqui, é o Pool de Emissoras mais importante do Brasil, e praticamente a Emissora oficial. Composto por Rádio Nacional, Bandeirantes e Jovem Pan. E tenho certeza que teremos o máximo de vocês”. E dava 100 dólares na mão do cara. Resultado: no dia seguinte, só faltava o tapete vermelho. Aí nós tínhamos a linha de transmissão, e a linha de retorno. E aí o engenheiro veio nos dizer: “tem um pequeno barulhinho no retorno”. E eu não tinha nem percebido. E o engenheiro continuou: “eu vou fazer o seguinte, vou tirar a linha de transmissão de uma outra Rádio e vou dar para vocês o retorno.” (risos) - e continuou “e esse seu retorno eu vou jogar para eles!” (risos). Ai o Pedro Luiz me fala num domingo à noite lá em Guadalajara: “Escuta Claudio: eu acho que é importante transmitir, porque pode ser o adversário do Brasil na final. E se a Itália ganhar e o Brasil ganhar, decidem a Copa do Mundo, porque é a terceira vitória e encerra a Jules Rimet. Você topa ir lá (fazer o jogo da Itália)?” E eu respondi: “Tudo bem, com muito prazer”. Porque paralelamente a equipe da Rádio, eu trabalhava também com o pessoal do “Tuttosport”, e cobria o Brasil para eles, fazendo matérias e tal.

O “Tuttosport” é de Torino. Eu havia trabalhado no “Corriere dello Sport” de Roma, fui para o “Tuttosport” de Torino e agora estou no “La Stampa”. E aí o Pedro chamou o Flávio Araujo e perguntou: “você topa fazer o jogo da Itália?” E ele: “tudo bem”. E aí, fomos nós de trem, no domingo a noite mesmo, e chegamos na segunda na Cidade do México. E fizemos o jogo, e o jogo foi na quarta. Quando foi na quinta-feira, chegou o pessoal de Guadalajara. E a sexta era o dia livre, porque não tinha jogo, não tinha circuito, não tinha nada. E eu tinha ido com o Flávio ver as pirâmides de Teotihuacán, e tinha outra coisa que eu queria ver muito, que era o Museu de Antropologia. E eu falei para o pessoal: “Vamos amanhã? Formamos um grupo e tal...” E aí chegou um e disse: “Ah não, eu vou fazer compras”.

Bom resumindo: do “bando” de brasileiros que tinha lá, e por volta de uns 50, só o Flávio Araujo topou ir comigo lá conhecer o Museu. E que é uma coisa maravilhosa, ficamos lá o dia inteiro, e ainda eu lamentei não poder ficar mais tempo, porque ainda não tinha conseguido ver tudo. E o resto do pessoal preferiu fazer compras.

BdoR.: O que você gostaria de fazer no Rádio, e que ainda não fez?
CC.: Gostaria não, porque sei que é uma coisa absolutamente utópica, mas tenho a absoluta convicção que, se eu tivesse uma Rádio minha, seria talvez um sucesso, e faliria em um ano ou dois no máximo. Por uma razão muito simples: primeiro, eu não admito que o profissional trabalhe em dois lugares. E se trabalha comigo, vai trabalhar só comigo. Então, se você ganha 10, eu te dou 30 e você deixa todo o resto e dá dedicação total aqui.

Segundo, capacidade profissional do pessoal técnico: tem certas coisas que não admito. Eu não quero um “aprendiz de feiticeiro”, eu quero um engenheiro. Então, determinadas coisas que você diz, - como ar condicionado global – “ah, não dá para ter a mesma temperatura em todos os estúdios, porque tem uma queda nos dutos, por ser um mais comprido e o outro curto.” Então aquilo que eu estudei em Fluidodinâmica era uma série de besteiras, porque o que me ensinaram não é assim. Então, por isso estou dizendo: pagaria ordenados absolutamente fora da média, e provavelmente não teria um retorno comercial. Mas por exemplo, eu não admito você mandar uma equipe num lugar e meia hora antes de iniciar a transmissão, a equipe não estar no estádio! E pelo menos 25 minutos antes, não estar em contato com a técnica, para a técnica conseguir equalizar todas as vozes para poder entrar tudo igual. Não um em cima, outra embaixo... Isso é uma coisa que eu não admito. Na minha Rádio, não aconteceria. Por isso que eu abriria falência, e era falência garantida. Mas durante o tempo em que funcionasse iria ser gostoso (risos).

BdoR.: Você acha que o Rádio AM tem “prazo de validade?” Vai acabar?
CC.: Acho que sim. Por uma razão muito simples: porque você não ouve bem. Anda na Paulista! Eu moro até que próximo da Paulista, e então eu vejo os problemas que eu tenho na recepção em casa, até do FM às vezes. Mas você não consegue ouvir direito! Some, dá problema. Então forçosamente você tem que ir para o FM. Tanto que hoje em dia nos carros, a maior parte das pessoas prefere levar um CD, um MP3, um IPod, para não ficar sem sinal. E por exemplo Fórmula 1, nós transmitimos AM e FM. Jogos importantes, AM e FM. Exatamente por isso.

BdoR.: O que te dá mais prazer: fazer Rádio ou TV?
CC.: É igual. Não tem diferença. O público mais ou menos é o mesmo... não tem assim...diferença.

BdoR.: Para terminar, quero pedir para você deixar uma mensagem para os leitores do Bastidores do Rádio.
CC.: Talvez seja uma mensagem um pouco cínica, mas se é possível dar um conselho – e tem aquela frase que, se conselho fosse importante era vendido, não era dado: se alguém pensa hoje em trabalhar em Rádio, desista e faça outra coisa. A nossa é uma profissão em extinção. Acho, e por uma razão muito simples, eu acho que hoje há uma proliferação de universidades e de faculdades de jornalismo – muitas de má qualidade - , e então aconteceu que o mercado ficou absolutamente saturado. Tem uma massa de gente na busca do primeiro emprego e não tem como podê-las receber. Isso aviltou todos os ordenados. Então, você tem poucas pessoas que ganham muito bem, e uma grande maioria que ganha mal. E não é que o Rádio vai acabar, é que eu vejo hoje, profissões outras, que são mais interessantes de um ponto de vista estritamente econômico.

Se você tem paixão, e sabe e diz “Olha, tá bom, eu vou ganhar mal, eu vou comer o ‘pão que o diabo amassou’” até conseguir me impor, e acreditar na sua chance, - então perfeito! Pode ser até um daqueles poucos que acabam ganhando muito bem. Mas é exceção. É como o futebol: você tem 1000 garotos e 999 serão desajustados pelo resto da vida.

BdoR.: Em nome dos leitores, quero agradecer a entrevista.
CC.: Eu é que agradeço.