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Publicitário e famoso diretor artístico e geral com passagens
pelas grandes emissoras de Rádio na cidade de São Paulo.
Como surgiu o Rádio em
sua vida e qual a primeira emissora que o Sr. dirigiu ?
O Rádio surgiu em
minha vida de uma maneira interessante. Tinha por volta de 11
para 12 anos e meu pai me convidou para participar da
inauguração da Rádio 9 de Julho, que pertencia aos organizadores
dos festejos do Quarto Centenário e depois passou para Igreja
Católica. Nesse dia, fui a inauguração da Rádio 9 de Julho.
Mas comecei a trabalhar
em
1970, na Rádio Record de São Paulo, ao lado do Paulito. Eu
trabalhava numa agência de Publicidade (América Publicidade), e
um contato da TV Record, Ramon Rey, me disse o seguinte: "Olha
tem lá o Paulito Carvalho, neto do Dr. Paulo Machado de
Carvalho, e ele está começando na Rádio e está organizando uma
equipe nova, você não quer conversar com ele?". Eu fui, tinha
meus 23 anos, e acabei assumindo a direção comercial da emissora
e o Paulito a direção geral. E naquela época a Rádio Record
estava totalmente abandonada, pois com o surgimento da TV Record
em 1953, eles esqueceram da Rádio dando apóio apenas a Rádio
Jovem Pan que estava no início e com grande sucesso. Foi assim
que começamos o trabalho.
Durante todos esses anos dirigindo diversas emissoras de Rádio,
o Sr. lembra de algum fato principal que tenha marcado essa
trajetória, algo que goste muito de lembrar ?
Olha... foram várias passagens importantes... Uma das
mais recentes foi com a Rádio 9 de Julho. A parte técnica da
emissora foi uma conquista nossa. É uma emissora que está muito
bem instalada, com som perfeito. Foi um trabalho muito bonito.
Mas, um outro trabalho muito interessante foi com a Rádio
Record, ao lado do Paulito que comandava a emissora. Eu era
diretor comercial, a Rádio Record estava completamente
abandonada e nós com o tempo fomos reequipando a emissora.
Fizemos uma pesquisa e verificamos que existia um espaço, o
mercado marginal das pessoas mais pobres estava completamente
descuidado e então resolvemos entrar neste mercado. Uma das
primeiras contratações foi o Zé Béttio, Altieris Barbiero,
Edison Guerra... e fomos montando a nossa equipe. Estava também
o Gil Gomes na época mas, assim que eu entrei na Record ele foi
contratado pela Rádio Globo. Mas com nossa nova equipe de
profissionais, fizemos um trabalho bastante interessante e
levamos a Rádio Record para o 1º lugar de audiência.
Além da Rádio Record, por quais outras emissoras o Sr. trabalhou
?
Trabalhei também no Sistema Globo de Rádio. Durante a minha
gestão na Globo, levamos a emissora para 150 quilos, além de
colocá-la em 1º lugar. Ainda no mesmo grupo de
emissoras, fizemos da antiga Rádio Excelsior uma emissora
jornalística, que naquele momento ficou conhecida como a
"emissora da abertura", porque isso aconteceu no início da
década de 80 e a Excelsior foi uma emissora que abriu espaço
para todas as pessoas que estavam exiladas e voltavam para o
Brasil. Foi uma passagem bastante interessante porque naquele
momento a Excelsior deixava de ser "A Máquina do Som", para ser
uma emissora jornalística. Entre os destaques da programação o
famoso "Balancê", com Osmar Santos e equipe.
Depois voltei para a Rádio Record, onde logo depois
reconquistamos o 1º lugar com grandes profissionais como Eli
Corrêa, Altieris Barbiero, Osmar Santos... Quando a Record
foi vendida para Igreja Universal, eu me desliguei imediatamente
da emissora e acabei indo para a Rádio América, pertencente a
Igreja Católica.
Na Rádio América fizemos um esquema diferente. Através de uma
pesquisa notamos que havia um espaço a ser explorado. Já que não
podíamos enfrentar os grandes comunicadores das Rádios
Globo, Record, Capital, então fizemos da Rádio América uma
emissora musical, pois verificamos que as FMs de então, não
atendiam um determinado segmento. Então montamos um departamento
de pesquisas, com o Sr. Calmon, até por sugestão do Agostinho.
Pois bem, montamos esse departamento onde tínhamos uma pesquisa
ininterrupta. Nós sabíamos o que estava acontecendo no Rádio,
inclusive a preferência musical no segmento popular, o que levou
a América para o 2º lugar durante 7 anos.
Passei também pela Rádio 9 de Julho e atualmente estou na Rádio
Capital.
Nós sabemos que você trabalhou e ainda
trabalha com grandes nomes do Rádio brasileiro. É verdade que
você foi buscar o Zé Béttio na Rádio Cometa ? Nos conte como foi
essa história ?
Foi o seguinte... Eu conversava com o Jorge Paulo: "Jorge Paulo
estou precisando de uma pessoa assim, um italiano que também
tenha trabalhado na roça, que tenha aquela mistura e saiba
contar aquele causo"... O Jorge Paulo então me disse: "Ouça esse
homem aqui na Rádio Cometa". Quando eu ouvi, mandei buscar o
"homem". Ai então conversei com o Zé Béttio e ele me disse:
"Puxa, agora não posso porque meu pai está muito doente. Deixa
resolver essa situação do meu pai que depois eu volto a
conversar com você".
Passados 3 meses, o Zé Béttio voltou. Seu pai infelizmente havia
falecido, mas acabamos acertando a sua contratação para a Rádio
Record onde ficou conhecido em todo o Brasil.
Quais as diferenças e características que o Sr. observa no Rádio
atual em comparação com o Rádios dos anos 70 e 80 ? Como você
observa o Rádio hoje em dia ?
Nos anos 70, o Rádio sofreu uma influência muito grande da
cultura rural. Pois naquela época, o pessoal da roça no interior
todo veio trabalhar em São Paulo, no grande centro. Então,
naquela época esse pessoal sentia muita saudade da sua terra e o
Rádio sofreu essa influência da cultura rural, tanto que nós
fizemos uma programação sertaneja com as grandes duplas, os
grandes festivais sertanejos, o que foi um grande sucesso.
Hoje eu acho que o Rádio é um prestador de serviço, um
companheiro. Acho que o Rádio popular hoje tem que ter uma
tendência muito grande para o jornalismo. Pois noto que ninguém
faz jornalismo popular.
As grandes matérias, as grandes notícias divulgadas pelas
emissoras de Rádio popular, na sua maioria já foram irradiadas
pelas emissoras jornalísticas. E as emissoras jornalísticas, são
todas dirigidas as classes A e B. Então o segmento popular fica
sem um porta-voz, uma emissora que preste serviço para essa
gente. Então por isso, a Rádio Capital tem hoje uma preocupação
muito grande com o social e com a periferia. Acho que ela tem
que estar ao lado do mais pobre, que está completamente
desprotegido em matéria de comunicação, de ter uma voz que fale
pelos mais pobres.
Chico, antigamente os grandes comunicadores faziam escola
no interior e vinham para São Paulo. Hoje, isso parece que
acabou. Você não acha que o Rádio está precisando de
renovação, com a presença de novos comunicadores, principalmente
no AM, em busca de um público mais jovem?
É o seguinte... Nós temos em São Paulo umas 50, 60 emissoras
entre AMs e FMs. Eu acho que isso é importante mas, eu acredito
muito hoje nesta fusão, neste perfil de comunicador que deve
falar bem, se comunicar bem, saber o que os seus ouvintes querem
ouvir. O comunicador de hoje tem que ter uma formação
jornalística. Eu acho que isso é muito importante porque o Rádio
hoje tem que prestar serviço, defender os mais pobres. Isso
digo, no seguimento popular. Para se ter uma idéia, na Grande SP
nós temos quase 20 milhões de habitantes, é a metade da França.
Esse índice é muito importante e essa citação obriga a renovar.
E agora com a era do digital, quais as
suas perspectivas quanto a chegada da transmissão digital ?
Eu acho que o AM toma fôlego e retoma a sua posição de
destaque. Acho que isso vai facilitar porque principalmente
trabalhando, operando numa cidade como São Paulo que é uma selva
de cimento armado, a obstrução do som, do sinal é muito grande.
E com a chegada do digital, o Rádio AM terá até a mesma
qualidade do FM, o que vai ajudar muito. Vai mudar
completamente. Acredito muito também na internet. Num primeiro
momento o pessoal ficou meio assustado, meio preocupado com o
futuro dos meios de comunicação, mas acredito que o Rádio e a
internet serão grandes parceiros. Com a internet o Rádio vai
adquirir mais força ainda.
Todos sabemos que a DM Farmacêutica, do
empresário Nelson Morizono, que também é proprietário da Rádio
Capital, foi vendida numa negociação bilionária com a empresa
Hypermarcas. Isso influenciaria de alguma forma no futuro da
Rádio Capital ?
O que eu posso garantir é que a Rádio Capital não fez parte
da negociação e continua a ter sua vida própria e
independente. Mesmo porque a Rádio Capital vai indo muito bem.
Chico Paes de Barros, um fato que já virou
"folclore" no Rádio é o seguinte. Dizem que todos os
funcionários sob sua responsabilidade, "temem" ser cumprimentado
pelo Sr. com 3 tapinhas nas costas. Tudo porque esse gesto seria
uma espécie de "aviso" ao funcionário cumprimentado desta
maneira, que ele logo seria dispensado. O Sr. tem conhecimento
desta história ?
Tenho... e acho normal, sabe por que ? O Rádio é uma
atividade atípica e quando você monta uma programação ela deve
ter uma característica. E essa característica obriga você a
buscar determinados profissionais. Então, muitas vezes você não
pode confundir o lado pessoal com o lado profissional. Tratar
bem as pessoas faz parte da educação, o que não quer dizer que
você tenha um compromisso com essa pessoa, com esse
profissional.
O que eu quero dizer é o seguinte, explicando melhor... A
seleção brasileira de futebol no ano de 1958, tinha o
Zagalo como titular da equipe. Mas ele não era o melhor
ponta-esquerda do Brasil. Tínhamos o Canhoteiro, Pepe... Então o
que foi convocado, que obedecia aquela característica no esquema
tático da seleção era o Zagalo, inclusive porque ele dava
cobertura para o Nilton Santos.
O que eu quero dizer é que hoje, um funcionário pode estar aqui
comigo muito bem e poderá não servir amanhã em uma outra
emissora. Ou eu mudando o esquema na emissora em que estou
atuando hoje, ele poderá deixar de ser útil. E isso não tem nada
a ver, pois ele vai continuar sendo um profissional magnífico,
vai continuar sendo meu amigo , vai continuar recebendo "tapinha
nas costas" (rs)... mas não serve para o novo esquema, você me
entendeu ?
E outra coisa, já trabalhei com grandes profissionais e cito
como exemplo o caso do Humberto Marçal, na Rádio Globo. Ele foi
meu grande amigo, levei ele para Globo, mas chegou um momento
que era a vez do Eli Corrêa. Dei um tapinha nas costas do
Humberto Marçal (rs)... Saí da Globo, voltei pra Record e levei
o Marçal comigo pra lá, porque para o esquema da Record ele se
encaixaria. Então, não tem nada a ver, faz parte... O que não
pode é, deixou de trabalhar virar inimigo.
Agora uma pergunta pessoal, fora do meio
Rádio, mas que eu gostaria de saber. Francisco Paes de Barros,
você tem medo de morrer ?
Não. Medo de morrer não tenho. O que me preocupa, o que eu
tenho medo é de ficar doente, de ficar numa situação difícil com
uma doença incurável. Tudo isso preocupa mas está nas mãos de
Deus. Deus é pai e entregamos tudo isso nas mãos dele para nos
dar forças para enfrentar esse momento difícil.
Finalizando nossa entrevista, qual a sua
mensagem e orientação para aqueles que pretendem ingressar neste
fascinante meio de comunicação que é o Rádio ?
O principal é gostar do Rádio, gostar de fazer Rádio e ser
idealista. O Rádio é um
pouco mais do que uma maneira de ganhar dinheiro, de se
sustentar. Rádio é um ideal.
Agradecemos essa entrevista e conte sempre
com o site "Bastidores do Rádio".
Eu que agradeço e fiquei honrado em poder participar.
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