FRANCISCO PAES DE BARROS

Publicitário e famoso diretor artístico e geral com passagens pelas grandes emissoras de Rádio na cidade de São Paulo.


Como surgiu o Rádio em sua vida e qual a primeira emissora que o Sr. dirigiu ?

O Rádio surgiu em minha vida de uma maneira interessante. Tinha por volta de 11 para 12 anos e meu pai me convidou para participar da inauguração da Rádio 9 de Julho, que pertencia aos organizadores dos festejos do Quarto Centenário e depois passou para Igreja Católica. Nesse dia, fui a inauguração da Rádio 9 de Julho.
Mas comecei a trabalhar
em 1970, na Rádio Record de São Paulo, ao lado do Paulito. Eu trabalhava numa agência de Publicidade (América Publicidade), e um contato da TV Record, Ramon Rey, me disse o seguinte: "Olha tem lá o Paulito Carvalho, neto do Dr. Paulo Machado de Carvalho, e ele está começando na Rádio e está organizando uma equipe nova, você não quer conversar com ele?". Eu fui, tinha meus 23 anos, e acabei assumindo a direção comercial da emissora e o Paulito a direção geral. E naquela época a Rádio Record estava totalmente abandonada, pois com o surgimento da TV Record em 1953, eles esqueceram da Rádio dando apóio apenas a Rádio Jovem Pan que estava no início e com grande sucesso. Foi assim que começamos o trabalho.

Durante todos esses anos dirigindo diversas emissoras de Rádio, o Sr. lembra de algum fato principal que tenha marcado essa trajetória, algo que goste muito de lembrar ?

Olha... foram várias passagens importantes...  Uma das mais recentes foi com a Rádio 9 de Julho. A parte técnica da emissora foi uma conquista nossa. É uma emissora que está muito bem instalada, com som perfeito. Foi um trabalho muito bonito. Mas, um outro trabalho muito interessante foi com a Rádio Record, ao lado do Paulito que comandava a emissora. Eu era diretor comercial, a Rádio Record estava completamente abandonada e nós com o tempo fomos reequipando a emissora. Fizemos uma pesquisa e verificamos que existia um espaço, o mercado marginal das pessoas mais pobres estava completamente descuidado e então resolvemos entrar neste mercado. Uma das primeiras contratações foi o Zé Béttio, Altieris Barbiero, Edison Guerra... e fomos montando a nossa equipe. Estava também o Gil Gomes na época mas, assim que eu entrei na Record ele foi contratado pela Rádio Globo. Mas com nossa nova equipe de profissionais, fizemos um trabalho bastante interessante e levamos a Rádio Record para o 1º lugar de audiência.

Além da Rádio Record, por quais outras emissoras o Sr. trabalhou ?

Trabalhei também no Sistema Globo de Rádio. Durante a minha gestão na Globo, levamos a emissora para 150 quilos, além de colocá-la em 1º lugar. Ainda no mesmo grupo de emissoras, fizemos da antiga Rádio Excelsior uma emissora jornalística, que naquele momento ficou conhecida como a "emissora da abertura", porque isso aconteceu no início da década de 80 e a Excelsior foi uma emissora que abriu espaço para todas as pessoas que estavam exiladas e voltavam para o Brasil. Foi uma passagem bastante interessante porque naquele momento a Excelsior deixava de ser "A Máquina do Som", para ser uma emissora jornalística. Entre os destaques da programação o famoso "Balancê", com Osmar Santos e equipe.
Depois voltei para a Rádio Record, onde logo depois reconquistamos o 1º lugar com grandes profissionais como Eli Corrêa, Altieris Barbiero, Osmar Santos...  Quando a Record foi vendida para Igreja Universal, eu me desliguei imediatamente da emissora e acabei indo para a Rádio América, pertencente a Igreja Católica.
Na Rádio América fizemos um esquema diferente. Através de uma pesquisa notamos que havia um espaço a ser explorado. Já que não podíamos  enfrentar os grandes comunicadores das Rádios Globo, Record, Capital, então fizemos da Rádio América uma emissora musical, pois verificamos que as FMs de então, não atendiam um determinado segmento. Então montamos um departamento de pesquisas, com o Sr. Calmon, até por sugestão do Agostinho. Pois bem, montamos esse departamento onde tínhamos uma pesquisa ininterrupta. Nós sabíamos o que estava acontecendo no Rádio, inclusive a preferência musical no segmento popular, o que levou a América para o 2º lugar durante 7 anos.
Passei também pela Rádio 9 de Julho e atualmente estou na Rádio Capital.


Nós sabemos que você trabalhou e ainda trabalha com grandes nomes do Rádio brasileiro. É verdade que você foi buscar o Zé Béttio na Rádio Cometa ? Nos conte como foi essa história ?


Foi o seguinte... Eu conversava com o Jorge Paulo: "Jorge Paulo estou precisando de uma pessoa assim, um italiano que também tenha trabalhado na roça, que tenha aquela mistura e saiba contar aquele causo"... O Jorge Paulo então me disse: "Ouça esse homem aqui na Rádio Cometa". Quando eu ouvi, mandei buscar o "homem". Ai então conversei com o Zé Béttio e ele me disse: "Puxa, agora não posso porque meu pai está muito doente. Deixa resolver essa situação do meu pai que depois eu volto a conversar com você".
Passados 3 meses, o Zé Béttio voltou. Seu pai infelizmente havia falecido, mas acabamos acertando a sua contratação para a Rádio Record onde ficou conhecido em todo o Brasil.


Quais as diferenças e características que o Sr. observa no Rádio atual em comparação com o Rádios dos anos 70 e 80 ? Como você observa o Rádio hoje em dia ?

Nos anos 70, o Rádio sofreu uma influência muito grande da cultura rural. Pois naquela época, o pessoal da roça no interior todo veio trabalhar em São Paulo, no  grande centro. Então, naquela época esse pessoal sentia muita saudade da sua terra e o Rádio sofreu essa influência da cultura rural, tanto que nós fizemos uma programação sertaneja com as grandes duplas, os grandes festivais sertanejos, o que foi um grande sucesso.
Hoje eu acho que o Rádio é um prestador de serviço, um companheiro. Acho que o Rádio popular hoje tem que ter uma tendência muito grande para o jornalismo. Pois noto que ninguém faz jornalismo popular.
As grandes matérias, as grandes notícias divulgadas pelas emissoras de Rádio popular, na sua maioria já foram irradiadas pelas emissoras jornalísticas. E as emissoras jornalísticas, são todas dirigidas as classes A e B. Então o segmento popular fica sem um porta-voz, uma emissora que preste serviço para essa gente. Então por isso, a Rádio Capital tem hoje uma preocupação muito grande com o social e com a periferia. Acho que ela tem que estar ao lado do mais pobre, que está completamente desprotegido em matéria de comunicação, de ter uma voz que fale pelos mais pobres.


Chico, antigamente os grandes comunicadores  faziam escola no interior e vinham para São Paulo. Hoje, isso parece que acabou.  Você não acha que o Rádio está precisando de renovação, com a presença de novos comunicadores, principalmente no AM, em busca de um público mais jovem?

É o seguinte... Nós temos em São Paulo umas 50, 60 emissoras entre AMs e FMs. Eu acho que isso é importante mas, eu acredito muito hoje nesta fusão, neste perfil de comunicador que deve falar bem, se comunicar bem, saber o que os seus ouvintes querem ouvir. O comunicador de hoje tem que ter uma formação jornalística. Eu acho que isso é muito importante porque o Rádio hoje tem que prestar serviço, defender os mais pobres. Isso digo, no seguimento popular. Para se ter uma idéia, na Grande SP nós temos quase 20 milhões de habitantes, é a metade da França. Esse índice é muito importante e essa citação obriga a renovar.

E agora com a era do digital, quais as suas perspectivas quanto a chegada da transmissão digital ?

Eu acho que o AM toma fôlego e retoma a sua posição de destaque. Acho que isso vai facilitar porque principalmente trabalhando, operando numa cidade como São Paulo que é uma selva de cimento armado, a obstrução do som, do sinal é muito grande. E com a chegada do digital, o Rádio AM terá até a mesma qualidade do FM, o que vai ajudar muito. Vai mudar completamente. Acredito muito também na internet. Num primeiro momento o pessoal ficou meio assustado, meio preocupado com o futuro dos meios de comunicação, mas acredito que o Rádio e a internet serão grandes parceiros. Com a internet o Rádio vai adquirir mais força ainda.

Todos sabemos que a DM Farmacêutica, do empresário Nelson Morizono, que também é proprietário da Rádio Capital, foi vendida numa negociação bilionária com a empresa Hypermarcas. Isso influenciaria de alguma forma no futuro da Rádio Capital ?

O que eu posso garantir é que a Rádio Capital não fez parte da negociação e  continua a ter sua vida própria e independente. Mesmo porque a Rádio Capital vai indo muito bem.

Chico Paes de Barros, um fato que já virou "folclore" no Rádio é o seguinte. Dizem que todos os funcionários sob sua responsabilidade, "temem" ser cumprimentado pelo Sr. com 3 tapinhas nas costas. Tudo porque esse gesto seria uma espécie de "aviso" ao funcionário cumprimentado desta maneira, que ele logo seria dispensado. O Sr. tem conhecimento desta história ?

Tenho... e acho normal, sabe por que ? O Rádio é uma atividade atípica e quando você monta uma programação ela deve ter uma característica. E essa característica obriga você a buscar determinados profissionais. Então, muitas vezes você não pode confundir o lado pessoal com o lado profissional. Tratar bem as pessoas faz parte da educação, o que não quer dizer que você tenha um compromisso com essa pessoa, com esse profissional.
O que eu quero dizer é o seguinte, explicando melhor... A seleção brasileira de futebol no ano de 1958,  tinha o Zagalo como titular da equipe. Mas ele não era o melhor ponta-esquerda do Brasil. Tínhamos o Canhoteiro, Pepe... Então o que foi convocado, que obedecia aquela característica no esquema tático da seleção era o Zagalo, inclusive porque ele dava cobertura para o Nilton Santos.
O que eu quero dizer é que hoje, um funcionário pode estar aqui comigo muito bem e poderá não servir amanhã em uma outra emissora. Ou eu mudando o esquema na emissora em que estou atuando hoje, ele poderá deixar de ser útil. E isso não tem nada a ver, pois ele vai continuar sendo um profissional magnífico, vai continuar sendo meu amigo , vai continuar recebendo "tapinha nas costas" (rs)... mas não serve para o novo esquema, você me entendeu ?
E outra coisa, já trabalhei com grandes profissionais e cito como exemplo o caso do Humberto Marçal, na Rádio Globo. Ele foi meu grande amigo, levei ele para Globo, mas chegou um momento que era a vez do Eli Corrêa.  Dei um tapinha nas costas do Humberto Marçal (rs)... Saí da Globo, voltei pra Record e levei o Marçal comigo pra lá, porque para o esquema da Record ele se encaixaria. Então, não tem nada a ver, faz parte... O que não pode é, deixou de trabalhar virar inimigo.

Agora uma pergunta pessoal, fora do meio Rádio, mas que eu gostaria de saber. Francisco Paes de Barros, você tem medo de morrer ?

Não. Medo de morrer não tenho. O que me preocupa, o que eu tenho medo é de ficar doente, de ficar numa situação difícil com uma doença incurável. Tudo isso preocupa mas está nas mãos de Deus. Deus é pai e entregamos tudo isso nas mãos dele para nos dar forças para enfrentar esse momento difícil.

Finalizando nossa entrevista, qual a sua mensagem e orientação para aqueles que pretendem ingressar neste fascinante meio de comunicação que é o Rádio ?

O principal é gostar do Rádio, gostar de fazer Rádio e ser idealista. O Rádio é um
pouco mais do que uma maneira de ganhar dinheiro, de se sustentar. Rádio é um ideal.

Agradecemos essa entrevista e conte sempre com o site "Bastidores do Rádio".

Eu que agradeço e fiquei honrado em poder participar.

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