Entrevistas

Paulo Soares
Paulo Soares nasceu em São Paulo, no dia 13 de setembro de 1962.

1 - No Wikipédia existe uma informação com o status de "a confirmar”, de que você teria iniciado sua carreira aos 15 anos de idade. É isso mesmo, você confirma essa informação?

Paulo Soares: É isso mesmo. Aos 15 anos eu narrei o primeiro jogo, em fevereiro de 1978, na Rádio Clube Ararense. Quando eu tinha 12 ou 13 anos, eu comecei a transmitir no meu gravador: eu ia para os estádios como o Morumbi, Pacaembu, Parque Antarctica, e levava meu gravador - que na época eram aqueles gravadores enormes -, e ficava em algum setor ali da arquibancada, e narrava os jogos. Ficava treinando. E fazia isso também em casa, narrando futebol de botão... então eu comecei a treinar nessa fase dos 12 ou 13 anos. E eu vou muito para Araras (cidade do interior do Estado de São Paulo), eu tenho familiares que tem uma fazenda em Araras, e eu sempre ia passar minhas férias escolares lá. E a fazenda disputava com uma equipe, o Torneio Rural de Futebol. Então, todo o domingo pela manhã tinha um jogo de futebol lá na fazenda, eu ia para a beira do campo e ficava lá narrando. E o pessoal da fazenda é que me incentivou a ir até a Rádio Clube Ararense. E eu fui a Rádio Clube Ararense, em fevereiro de 1978, era uma quinta-feira à tarde, e no domingo eles já me colocaram para narrar o primeiro jogo. Na quinta-feira que eu fui lá, eles me levaram ao estúdio no programa de esportes que começava às 6 da tarde chamado Ronda Esportiva, e me anunciaram como contratado da Rádio. Eu era um garoto, não tinha noção nenhuma ou pouquíssima noção... me anunciaram como locutor de Rádio e eu tinha a voz ainda em transição, mudança na voz... Mas no domingo eu fui narrar meu primeiro jogo que foi a decisão de um torneio da região, chamado Belmiro Fanelli. A partida foi America de Iracemápolis contra Usina São João de Araras - que é o atual União São João, no Estádio Eugenio Brandt, um antigo Estádio que ainda existe e é muito bonito por sinal. E foi assim que eu transmiti meu primeiro jogo, num domingo de 1978, mas agora eu não me lembro à data. Tudo isso, foi incentivado por uma amiga, que se chama Beatriz Lefèvre - colunista, fotógrafa -, e como nós somos muito amigos, e ela gostava muito de futebol... Na verdade eu gostava de jogar futebol, mas não gostava muito de assistir futebol. Então eu jogava futebol na escola, e joguei muito tempo handebol - esse foi meu forte -, mas a Beatriz é corintiana fanática, e eu ia muito aos jogos com ela. Isso com 9, 10, 11, 12 anos de idade. Lá pelos 13 anos, ela se mudou com família para morar em Grenoble na França. E como ela era muito fanática torcedora do Corinthians, então a pedido dela eu comecei a enviar noticias do Corinthians para ela na França... porque naquela época não existia internet, não existia nada. Era tudo por carta, Correios mesmo. E por isso, eu comecei a comprar jornais - como a Gazeta Esportiva, o Popular da Tarde, e os demais jornais de esportes - e passei também a me interessar. Primeiro para pegar as noticias para mandar para ela, mas eu comecei a gostar daquela coisa do jornal esportivo impresso. E pelos jornais, eu descobri o rádio, porque nos jornais havia as chamadas para as transmissões de futebol da Jovem Pan, da Bandeirantes, da Rádio Gazeta, e eu comecei a ligar o Rádio. E aí, lá pelos 12, 13 anos eu comecei a gostar muito de rádio. Então, eu mandava as noticias para ela, mandava cartas quilométricas - e ela até se irritava com o tamanho das cartas -, mas a partir disso, eu comecei a ouvir muito os programas esportivos e as transmissões, e isso é que me levou a começar ir aos estádios, a gravar... foi assim.

2 - Qual é a sua formação?
P.S: Minha formação é como radialista, não sou jornalista, sou formado em Rádio e estudei sempre aqui em São Paulo - apenas num curto período em Itapetininga, quando meus pais foram morar lá -, e minha base toda é aqui em São Paulo. Estudei no Vocacional Luís Antonio Machado. Primeiro eu estudei no Mater Dei - um colégio muito forte, na Av. Brasil, e eu sofri muito lá. Depois eu fui para o Vocacional Luís Antonio Machado e foi bem legal porque era uma proposta mais aberta, um colégio diferente porque vivíamos naquele período forte da ditadura militar e foi bem legal. Depois disso fui estudar no Colégio Equipe - que era um colégio revolucionário para a época -, e ali eu aprendi muito no sentido de “vida” mesmo, de comportamento, de relacionamento... fiz grandes amigos lá, e alguns deles se destacam na cultura e nas artes, que vieram do Colégio Equipe, e isso foi muito importante para mim. E lá no Colégio Equipe, com um grupo de amigos, lançamos uma rádio que se chamava “Rádio Equipe”. E também nos intervalos, eu ia narrar os jogos dos campeonatos internos do Colégio. Lá no Equipe tinha o Serginho Groisman, que era o diretor do Centro Cultural. Os Titãs começaram a formação lá no Colégio. E como eu comecei minha carreira aos 15 anos, eu estava indo para o primeiro ano do colegial. Então, quando eu terminei o colegial eu já tinha três anos de rádio, como narrador. Eu comecei como narrador e sempre fui narrador. Eu já tinha dois anos de rádio em Santos porque eu fiz um ano de rádio em Araras e vim para Santos. E em Santos eu trabalhei quase cinco anos. Então, eu já tinha dois anos de rádio acompanhando os jogos do Santos, da Portuguesa Santista e do Jabaquara, simultaneamente aos meus estudos no Colégio, um desenvolvimento prático muito grande, eu ganhei muito. Eu diria que minha grande formação vem da Rádio Clube Ararense, depois da Rádio Clube de Santos, da Rádio Cacique de Santos, da Rádio Guarujá, e eu acho que essa base que tive no interior e em Santos foi muito importante. Aí, quando eu saí do colegial fiz um curso de rádio. Eu optei pelo rádio e não investi muito para ir à universidade. Eu poderia ter ido para a USP - para fazer a ECA (Escola de Comunicação e Artes da USP)-, porque na época só a ECA é que tinha um pouco de curso de rádio. A PUC não tinha, a FMU não tinha, a Cásper Libero não tinha... nenhuma tinha! A Cásper Líbero até tinha um pouquinho, mas eram cursos muito pobres. E meu negocio era rádio. Então eu percebi que trabalhando, na prática eu aprenderia mais. Então fiz um curso de seis meses de Rádio, profissionalizante... que não foi o do SENAC (Serviço Nacional do Comércio) porque ainda não tinha o curso do SENAC. Isso foi por volta de 1979 ou 1980...  não tinha nada! Ou você ia para fazer a base toda no jornalismo e saía formado como é até hoje... mas hoje você tem nas faculdades as matérias de rádio e televisão um pouco mais estruturados nos cursos. Naquela época não tinha nada, tanto que eu pensei em ir estudar na Inglaterra. Pensei em estudar lá, para fazer um curso na BBC. Eu pensei em ficar um ano lá, mas também desisti porque a minha carreira estava começando a deslanchar. Porque eu cheguei bem em Santos... mesmo um garoto, mas depois de um ano eu já era requisitado pelas outras emissoras. Então, eu decolei rápido em Santos e consegui me estruturar forte na cidade. Eu não fui morar lá... eu só ia para transmitir os jogos. Eu continuei morando aqui (em São Paulo). Ia, transmitia o jogo e voltava. Mas aí, no começo de 1983 eu vim para a Rádio Gazeta de São Paulo (AM 890 kHz), que foi a minha primeira Rádio em São Paulo.

3 - Então para registrarmos todas as emissoras de rádio que você trabalhou, poderia listá-las?
P.S: Eu vou fazer uma ordem quase cronológica porque em determinados períodos eu fazia já televisão simultaneamente e cheguei a trabalhar às vezes em três lugares diferentes. Mas, foram - começando por 1978:
- Rádio Clube Ararense (um ano); depois em Santos - dois anos na Rádio Clube de Santos; um ano na Rádio Cacique; e mais um ano na Rádio Guarujá. Foram quatro anos em Santos e um em Araras. Quando eu saí de Santos, eu tive uma rápida passagem pela Rádio Difusora Oeste de Osasco, que tinha a Equipe Furacão de Antonio Julio Baltazar, por aproximadamente 30 dias. Então, eu vim no inicio de 1983 para São Paulo: trabalhei na Rádio Gazeta na primeira passagem, por dois anos. Tive uma experiência muito grande, aprendi muito porque Pedro Luiz Paoliello foi para lá e acabou sendo o nosso diretor de esportes. Foi bem legal e pude aprender muito com ele. Em 1985 fui para a Rádio Record, que voltava a transmitir futebol após 25 anos de interrupção. A Rádio Record montou uma equipe que era encabeçada por Osvaldo Maciel, Edson Scatamachia e pelo Sérgio Cunha. Aí eu fiquei na Rádio Record até 1992. Lembrando que em 1988, a Record passa a transmitir os jogos junto com a Rádio Gazeta, então eu acabei voltando a transmitir também pela Rádio Gazeta. Voltando a 1992, eu resolvi sair da Rádio Record, pois a Record havia sido vendida para os bispos (da Igreja Universal do Reino de Deus - IURD), e o clima estava bastante pesado lá. Então eu peguei aquela transição da família do Dr. Paulo Machado de Carvalho para a chegada da igreja (Universal) e foi muito pesado para quem estava lá e conhecia o jeito da Record, da rádio, da televisão, da família do Dr. Paulo (Machado de Carvalho Filho) que convivia com a gente... a entrada da igreja (Universal) foi muito agressiva, e muitos companheiros saíram de lá por isso, e eu saí também. Então eu voltei para a Rádio Gazeta, e fiquei lá durante nove meses. A Gazeta já havia se separado da Record porque o Osmar Santos (então locutor da Rádio Record) havia voltado para a Rádio Globo. E nessa volta do Osmar para a Rádio Globo, terminou o contrato da Record com a Gazeta e a Gazeta me fez uma proposta de tentar continuar a equipe de esportes lá e eu acabei aceitando. Fui junto com o Odinei Edson, que é um dos irmãos do Osmar, e foi também para cuidar da parte comercial. O projeto no papel era muito bom, muito forte com um investimento muito alto da Fundação Cásper Libero - quase foi para lá o José Silvério... balançou, balançou, balançou, bateu na trave umas 10 vezes, mas ele acabou ficando na Rádio Jovem Pan. Ele já estava um pouco desgastado na Pan, tanto é que mais tarde ele sai. Enfim, saí da Rádio Gazeta em setembro de 1992, e fui para a Rádio Globo. Fiquei na Rádio Globo por bastante tempo, acabei assumindo o posto de coordenador de esportes da Rádio Globo. Foi uma época muito importante para mim e foi bem legal! Aí em 1998 eu saí da Rádio Globo para ficar só aqui na ESPN Brasil... é que simultaneamente eu vinha fazendo: desde a Rádio Gazeta, eu fazia também a TV Gazeta, e esses foram meus primeiros passos na TV. Depois fui para a Rádio Record e simultaneamente também fui fazer a TV Record. Aí, saí da Record voltei para a Rádio Gazeta, fui para a Rádio Globo e nesse meio tempo comecei a trabalhar também na TV Cultura (de São Paulo). O José Trajano trabalhava também na TV Cultura, mas quem me chamou foi o Michel Laurence (pai de Bruno Laurence, atual TV Globo) e o Laércio Roma, para a transmissão dos campeonatos japonês, alemão e outros que a TV Cultura detinha os direitos de transmissão. Então eu estava na Rádio Globo e TV Cultura. Só que em 1994 vem a TVA Esportes (embrião do que hoje é a ESPN Brasil), e o (José) Trajano que me conheceu lá na Cultura, me chamou e eu continuei na Rádio Globo e vim para cá (ESPN). Mas em 1998, eu estava aqui já como ESPN, na Rádio Globo e recebi um convite para trabalhar no SBT. O SBT havia adquirido naquele ano: Copa do Brasil, Torneio Rio - São Paulo, Copa MERCOSUL e a Copa do Mundo. E fui para o SBT! Um pouco antes de iniciar a Copa de 1998 eu fiz todo o projeto na Rádio Globo, mas não teve jeito, eu saí mesmo da Rádio Globo porque eu tinha que sair de algum lugar, não estava dando mais. Eu fiz um acordo, saí da Rádio Globo e segui no SBT e na ESPN. E em dezembro daquele ano, o Silvio Santos acabou com o esporte e eu segui aqui na ESPN e logo fui convidado pela Rádio Bandeirantes. Eu fiquei dois anos na Bandeirantes, junto com a ESPN. E quando eu estava na Rádio Bandeirantes, surgiu o SportsCenter edição nacional, que o (José) Trajano queria que eu fizesse todas as noites. E para fazer isso, eu acabei saindo da Rádio Bandeirantes, também por outros projetos aqui na TV (ESPN) que estava crescendo muito. E eu deixei a Rádio Bandeirantes e saí do rádio. Achei que nunca mais faria rádio. Aqui, na ESPN, desde 1996 já se falava em ter uma emissora de rádio, era um projeto antigo. E sempre ia um pouco, voltava... ia, voltava. E naquela época, quando eu saí da Rádio Bandeirantes, eu fiquei uns dois anos meio que perdido, porque eu vinha desde os 15 anos fazendo rádio e achei que não voltaria para o rádio. Aí em 2006, quase vai ao ar o projeto que era para começar na Copa do Mundo da Alemanha, mas nós optamos por abortar porque já estava muito em cima. Em 2007 vem a Rádio Eldorado (de São Paulo) com a ESPN formando a dobradinha Eldorado/ESPN, e então eu voltei para o rádio. E essas foram às emissoras que eu passei. No total eu fiquei seis anos fora do Rádio - de 2000 a 2006.
4) Em quais dessas emissoras então você trabalhou com o Osmar Santos? Na Globo, na Record...
P.S.: A primeira vez que eu trabalhei com o Osmar foi em 1988 na Rádio Record. Eu estava na Record, em 1988 houve uma troca: o Osmar Santos foi para a Record e o Osvaldo Maciel voltou para a Rádio Globo. Aí o Osmar veio e trouxe muita gente com ele: Henrique Guilherme, Roberto Carmona, já estava lá o Roberto Silva... enfim, foi um timaço. Era um time muito grande e muito forte. Os locutores eram: Osmar Santos, Reinaldo Costa, Cledi Oliveira, eu, tinha muita gente boa. Eu já conhecia o Osmar, já conhecia o Oscar (Ulisses), já era amigo deles mas profissionalmente foi o primeiro conato. Eu trabalhei com o Osmar de 1988 a 1990. Em 1991, ele volta para a Rádio Globo e em 1992, eu é que fui para a Rádio Globo. Então eu volto a trabalhar com ele e foi muito legal, porque ele e o Oscar me ajudaram muito lá, além do Luís Roberto (de Mucio - atual TV Globo), que é meu grande amigo, e o Tim Teixeira, que era o coordenador de esportes da Rádio Globo. Um pouco antes da Copa de 1994, saí da emissora e o Oscar Ulisses fez um convite para eu assumir a coordenação no lugar do Tim. E eu respondi: “olha, eu até topo, mas tem que vir o Luís Roberto comigo”, e aí fizemos uma dobradinha: ficamos eu e o Luís Roberto a frente da coordenação de esportes da Rádio Globo por quatro anos. Foram quatro anos muito ricos para nós e para a Rádio Globo. Nós já estávamos num período difícil do Rádio... o Rádio numa tendência de declive e nós estávamos lá “segurando a barra”.

5 - E nesse contato profissional com o Osmar Santos na Rádio Record e na Rádio Globo, de alguma forma mudou alguma coisa na sua característica de narração? Incorporou algo de novo que você não utilizava?
P.S.: Então! Eu estou no rádio, talvez de 90% a 95% por causa do Osmar. Porque foi a minha primeira paixão na narração, o Osmar Santos. Então, naquela época em que eu comecei a ligar o rádio, eu liguei e comecei a ouvir a Jovem Pan - foi a minha primeira rádio. Então, a minha primeira paixão como rádio foi a Jovem Pan e a minha primeira paixão na narração foi o Osmar Santos. Eu era garoto e a Jovem Pan tinha uma linguagem jovem para época, uma rádio “vinhetada”, enquanto que as outras rádios eram mais tradicionais ainda, usavam uma linguagem mais antiga, um formato ainda antigo, e a Jovem Pan era uma rádio alegre, jovem - e por isso que usava o “Jovem” - e o Osmar tinha uma linguagem jovem. Eu fiquei muito entusiasmado e impressionado. E a minha escola, é de ouvinte! Porque eu ouvi muito, e aí passei a ouvir “todos”. Todos os narradores, todas as rádios, e até de fora de São Paulo: eu ouvia o pessoal da Rádio Gaúcha, da Rádio Guaíba, ouvia a Itatiaia, tudo pelo meu rádio. Ouvia também o pessoal do Rio... Comecei a ouvir muito e aprendi muito ouvindo. E é interessante que o Osmar Santos é minha grande paixão no rádio, mas eu não levei nada do Osmar para as minhas transmissões. Porque o Osmar fez uma escola muito grande de seguidores e esses seguidores fazem da transmissão deles hoje muito do que o Osmar fazia: usando bordões parecidos, o estilo, o jeito, a entonação, mas eu nunca tive isso do Osmar. O Osmar para mim foi um incentivador, mas eu nunca fui um cara que copiou ou imitou o Osmar. Eu sempre gostei da narração descritiva, e depois trabalhei com o Pedro Luiz - e fiquei muito amigo dele Pedro Luiz -, e o Pedro Luiz era um “relator do jogo”, porque ele descrevia o jogo. E eu nunca ouvi o Pedro ao vivo, ouvi só em gravações, mas da minha vivência com ele, me fez gostar ainda mais da narração descritiva, aquela que eu ouvia e tentava ver o campo. Com o Osmar, eu via o campo. Mas o Osmar ainda era mais, ele abraçava o mundo - ele tinha uma magia. O Fiori (Gigliotti) era uma cara mágico... mas outros narradores - que eu considero grandes narradores - como o Flávio Araujo, o Ênio Rodrigues, Edemar Annuseck, Marco Antonio Mattos, Haroldo Fernandes, Alfredo Orlando, Wilson de Freitas, José Carlos Guedes, - todo esse grupo enorme de narradores eram narradores de relato, quer dizer, transmitiam o que estava se passando. E essa é a minha escola, é a escola da descrição do lance. E depois trabalhando com o Osmar eu aprendi muito com o lado humano dele. Aprendi de comando - como também aprendi com o Pedro Luiz, que era um cara mais “agressivo”, mas linha “Trajano”, um cara muito convicto de suas posições - e o Osmar já era um cara mais tranqüilo, levava aqui e ali. Do mesmo jeito que ele levava para suas transmissões e suas entrevistas, ele conseguia arrancar tudo de todo mundo. O Osmar é muito inteligente e eu aprendi com a inteligência dele. Da forma dele dirigir, conduzir, se relacionar com as pessoas. E o Osmar me deu muito força porque em determinado momento o Osmar sai um pouco do rádio e começa a investir na TV Record, e depois na TV Manchete e aos domingos, ele vinha para fazer o jogo: ele vinha, narrava o primeiro tempo e passava para mim no intervalo, e eu narrava o segundo tempo. Isso meu deu muita força na época. Eu não estava nem muito preparado, eu não estava preparado para isso. Se fosse hoje, teria sido diferente: porque eu nunca fui um cara ambicioso, ganancioso, sempre fui muito tranqüilo. Então eu estava num estúdio ao lado do Osmar ou num estádio, assim como se fosse um fã dele. Tinha momentos em que eu ficava tremendo e pensava: “não é possível que estou do lado desse cara”. Eu narrei os segundos tempos dele por bastante tempo e tive a chance de narrar decisões na (rádio) Record, porque ele tinha outros compromissos. Durante quase todo o tempo dele na Record, eu fui o segundo dele. E eu agradeço muito a ele. Ele é uma cara formidável, sensacional e um cara que não merecia o que aconteceu com ele. Merecia ainda estar aí transmitindo futebol, até porque a qualidade hoje é bem diferente. Ele faz muita falta.
6 - Qual foi a primeira Copa do Mundo que você transmitiu?
P.S: Foi a de 1986 no México, naquele projeto da Rádio Record que trouxe de volta para transmissões esportivas que aconteceu em 1985, mirando a Copa de 1986 no México. Então a minha primeira Copa foi a do México, em 1986.

7 - E daí em diante, você fez todas as Copas do Mundo ou falhou alguma?
P.S: Não, daí para frente eu não fiz todas. Eu fiz a de 1990 com a equipe do Osmar pela Rádio Record. Em 1994 eu fiquei fora - eu não fui aos Estados Unidos, mas eu me senti muito integrado porque como eu já era o coordenador da Rádio Globo eu praticamente fiquei morando dentro da rádio naquele período da Copa, e o dia inteiro coordenando o Sistema Globo de Rádio - que estava sendo implantado e nós tínhamos uma rede de 200 emissoras pelo Brasil além das nossas transmissões com a equipe nos Estados Unidos com o Osmar, o Oscar, o Luís Roberto e uma equipe enorme. E eu fiquei na coordenação daquela Copa do Mundo. Para mim, a experiência de ter feito uma Copa do Mundo como diretor coordenando, chefiando, por trás dos microfones, foi para mim muito enriquecedora. Depois veio a Copa de 1998 que eu fiz aqui pela ESPN Brasil e pelo SBT. A Copa de 2002 ninguém teve os direitos e por isso foi uma Copa exclusiva da (Rede) Globo, e por isso a ESPN Brasil ficou fora e rádio eu já não fazia mais. Aí, eu fiz a Copa de 2006 na Alemanha aqui pela ESPN Brasil; a Copa de 2010 pela ESPN Brasil e pela Rádio Eldorado/ESPN.

8 - Para deixarmos registrado na entrevista, perguntamos: Como surgiu o apelido “Amigão da Galera”?
P.S: Surgiu na Rádio Record por volta de 1989. Quem me deu o apelido foi o Osvaldo Pascoal - que hoje é o coordenador de esportes da Rádio Globo de São Paulo e também comentarista -, na época ele era repórter e um dos titulares do Osmar Santos. E o Pascoal é um cara muito criativo, sempre foi irreverente e o Osmar era aberto a receber sugestões. Então, o Pascoal era um dos caras que sempre dava muitas sugestões de frases... o Cledi Oliveira também passava várias sugestões ao Osmar... Enfim, e o Pascoal era criativo, ele criou por exemplo nas transmissões do Cledi “Se for pro gol Cledi...” E o Cledir entrava respondendo: “Me chama que eu vou”. Outra criação do Osvaldo Pascoal pro Cledi foi: “Cledi Oliveira, o locutor que toca de primeira”; para o Reinaldo Costa o Pascoal criou “O locutor que a galera gosta”; e pra mim o Osvaldo Pascoal conta: “poxa, não achava nada, não achava nada... ai pensei: o Amigão da Galera, por que você é amigão de todo mundo, todo mundo gosta de você, você gosta de todo mundo, então  ficou o Amigão, Amigão.” E ele lançou um dia na transmissão “vem aí o Amigão da Galera”. Isso foi em 1989, e de lá pra cá, a marca “Amigão” foi crescendo, crescendo, e hoje poucas pessoas me chamam pelo meu nome, me chamam mais de Amigão. No rádio o pessoal me chama de “Paulinho”, mas aí virou Amigão, e é Amigão!
9 - E quais são os “Amigões” que você tem? Aqueles que viveram com você no Rádio e hoje fazem parte do seu rol de amizades?
P.S: Olha, eu acho que isso é a mesma coisa que você fazer uma lista de casamento! É a mesma dificuldade que você tem de fazer uma lista. Eu acho que eu tenho muitos amigos e até pessoas que eu nem sei direito se são tão amigos assim, mas que essas pessoas se sentem como sendo meus e minhas amigas. Então eu acho que tem muita gente. Agora, eu tenho um grande amigo que vem desde o tempo do Rádio de Santos que é o Luís Roberto (de Mucio), que hoje atua na TV Globo e nós somos amigos mesmo desde uns 15 ou 16 anos de idade. Eu cheguei primeiro em Santos e pouco depois ele também chegou, e nós começamos a amizade alí. Eu transmitia pela Rádio Cultura e ele transmitia pela Rádio Cacique. Hoje eu tenho de verdade muitos amigos. Um grande amigo é o Alex Tseng, o chinês aqui da ESPN - é amigo mesmo. É assim, todo mundo é amigo: desde o Roberto Carmona que foi um grande companheiro de viagens, de cobertura de Copas do Mundo; o Luis Carlos Quartarollo - que na época era Luis Carlos Santos e trabalhamos juntos na Rádio Record e na Rádio Gazeta e fizemos juntos a Copa de 1986; além de Oscar Ulisses; Odinei Edson; Carlos Fernando - que hoje está no canal BandSports e que também é de Santos, e foi da mesma turma que fazia as transmissões em Santos. Tanto que o Carlos Fernando e o Luis Roberto conseguiram trazer muita gente pro Rádio esportivo de São Paulo. Mais amigos: o Eduardo Silva - hoje diretor de esportes da TV A Tribuna de Santos -; o Edson Scatamachia; José Trajano. Bom, se eu for continuar, você vai ter que publicar uns 300 nomes. É melhor publicar que “eu adoro todo mundo”. Mas hoje, que eu considero “amigo”, amigo mesmo, são dois: O Luis Roberto e o Alex Tseng. Mas o Cléber Machado, de uns cinco anos para cá nos tornamos super amigos, até de estarmos todas as semanas juntos. No tempo da Gazeta nós atuávamos na empresa na mesma época: só que ele na TV e eu na Rádio. Ele estava começando na televisão e eu atuando na rádio. Só que de quatro ou cinco anos para cá é que nós passamos a ser mesmo amigos. Da época em que ele começou a fazer o “Arena” (no canal Sportv) e agora toda a semana a gente se encontra para comer pizza... Mas... eu tenho mesmo muitos “amigos”.

10 - Ainda sobre a sua volta pro rádio, você mesmo citou a pouco que achava que nem voltaria mais ao rádio. Mas você sentiu falta dessa distância do veículo?
P.S: Eu senti no começo. Durante uns dois anos eu senti. É, até acho bastante tempo mas eu sentia sim. Mas ao mesmo tempo eu estava tão cansado de trabalhar muito que parecia que o problema era com o rádio porque estava sempre em dois ou três lugares, e isso me deixou muito cansado. E isso resultou num misto de aversão e cansaço do rádio - agravado pelo tempo que eu já trabalhava no rádio... sem contar o esgotamento físico e mental -, com uma vontade de às vezes estar transmitindo jogos no rádio. E isso durou dois anos. E o Jota Junior (atual Sportv) - que é um outro amigo -, passou por uma situação parecida porque ele saiu do rádio pra televisão, como a maioria dos atuais locutores. E alguns “viraram a chave”, como por exemplo o Luis Roberto. Quando ele foi pra TV Globo, na hora ele “virou a chave”, quer dizer, ele tentou esquecer e esqueceu o rádio. O Jota Junior foi para a televisão, mesmo sendo um excelente narrador de rádio. O “Jotinha” gostava de fazer rádio, mas ao começar na televisão ele colocou na cabeça “não vou fazer rádio!” E não fez mais. E eu levei tempo para isso. E aí, quando eu já estava relaxado, sossegado, tinha esquecido o rádio e estava ouvindo pouco rádio - porque eu ouvia muito rádio, e isso foi uma forma de eu me divorciar, era não ouvindo tanto -, foi quando começou a surgir o “papo” de se fazer uma equipe de rádio aqui (na ESPN). E voltei, mas voltei sem muita empolgação, porque eu já estava numa sintonia “zen”, achando que meu negócio era ficar só na televisão mesmo. Mas aí, o projeto começou, engatilhou e eu voltei. Mas eu senti falta sim no começo.

11 - E o modo e a linguagem, é bem diferente entre o rádio e a televisão. Você teve dificuldades na readaptação?
P.S.: Eu tive, e tenho ainda. Quer dizer, eu tenho dificuldade em fazer rádio e televisão muito próximos. E eu acho que não sou só eu. Eu ouço, eu sou observador, eu respeito todo mundo, mas ouço como um cara técnico também. Então, muita gente faz rádio e televisão e aqui na ESPN nós temos muito isso. Outros canais tem o pessoal que faz rádio e se precisar narra na TV. O Sportv tem alguns locutores de rádio que vão fazer jogos. Mas eu acho que é muito difícil para nós, para todos nós que fazemos rádio e televisão ao mesmo tempo, porque a linguagem é muito diferente. Eu sinceramente acho que se estivesse fazendo um só - eu estou falando de narração na TV ou no Rádio -, se estivesse me dedicando a um só, eu acabaria ganhando mais. Tudo bem, você fica um pouco aqui, um pouco ali, mas é difícil. É muito difícil. Eu pessoalmente acho o rádio mais fácil do que a televisão. A TV pra mim sempre foi uma coisa muito difícil. Eu tenho essa humildade de dizer. E acho que muitos não percebem, mas a televisão é muito complexa. Tanto que eu acho que os bons narradores de televisão são poucos. Temos relatores no estilo “relator”, narradores mais conversadores, que conversam e ancoram a transmissão de futebol na televisão, e o Cléber Machado é um deles... Tem aquele estilo do Silvio Luiz que era mais levado na brincadeira, e tem outros que são só narradores, outros que tem o mesmo estilo do rádio... Então tem uma diversificação: o Éder Luiz quando narra na televisão, ele leva muito o que é do rádio para a TV. Se isso é bom ou é ruim, eu não sei! Eu acho que nós profissionais temos dificuldades porque não é fácil fazer televisão. Para quem faz rádio, é mais fácil fazer rádio. Quando vai para a televisão sofre muito. E como normalmente o profissional que faz TV não faz rádio, como por exemplo o Paulo Andrade que é narrador dos canais ESPN, e só faz TV, não adianta ele querer fazer rádio. Outro exemplo é o João Palomino. Outro, é o Milton Leite. São profissionais que são só narradores de televisão. O narrador de rádio até tem essa vantagem: se precisar o cara vai e narra na TV. Bem ou mau, ele narra. Agora, eu tenho muita dificuldade. E eu gosto de rádio, e nem penso em sair agora tão cedo.
12 - Você nos disse que é muito conhecido como “Amigão”, mas também é muito conhecido como “ O apresentador do SportsCenter”. Você acha que o SportsCenter daria certo com esse formato na TV aberta?
P.S.: Eu acho que sim. Não sei se exatamente nesse formato, mas eu acho que daria. Primeiro que a maior parte dos espectadores gostam de esportes e apesar de sabermos que a maior parte das emissoras que fazem programas esportivos precisam “se virar”, para conquistar audiência. Porque a briga na TV aberta pela audiência é muito diferente dessa briga que os canais a cabo estão começando a se envolver mais. A briga começa a ser mais forte com a entrada do Fox Sports, e então essa disputa talvez vá sugerir algumas transformações lá na frente. Mas na televisão aberta, veja como o Globo Esporte teve que procurar outra linguagem. E mesmo a Bandeirantes, teve que buscar outros formatos para se firmar. Mas eu acho que o brasileiro gosta de esportes, gosta essencialmente de futebol, e é claro que aqui o SportsCenter tem muita coisa diferente: aqui a gente fala do Beisebol, da NBA, do Hóquei no gelo, fala da NASCAR, aqui tem de tudo... campeonatos europeus... E na TV aberta é uma coisa mais nacional. Saindo um pouco do futebol, se fala no máximo da Fórmula 1. Aqui não! E eu também acho que a dupla “Amigão - Antero (Greco)” ajuda muito. O SportsCenter é muito forte pela marca que a ESPN carrega pelo mundo. Mas o programa cresceu muito, a TV ESPN cresceu muito, mas eu também acho que a dupla de apresentadores aqui deu certo - e que começou assim “meio do nada” e virou uma marca também. Eu acho que a dupla “Amigão - Antero” numa TV aberta, com o SportsCenter, mexendo um pouquinho aqui ou ali, daria certo sim.

13- Uma das impressões que nós telespectadores temos, é que o SportsCenter é realizado com um entusiasmo muito grande. Além do fato de que os apresentadores de tempos em tempos são notícia nos meios de comunicação pelas gafes e brincadeiras que acontecem no programa. Mas por trás das câmeras, é isso mesmo que acontece? Ou isso é só uma impressão?
P.S.: O programa SportsCenter tem uma equipe muito grande, tem um time formado em sua maioria por garotos, então é apresentado com uma linguagem mais leve, suave. Eu acho que a competência dessa “meninada” tanto no SportsCenter da hora do almoço, quanto a edição da noite, ajudaria muito se nós tivéssemos essa experiência de levar o programa para a TV aberta. Levando um grupo que vem da televisão por assinatura para a TV aberta, para quem sabe bater de frente, ou quebrar a cara, mas esse grupo ajuda muito! Porque a equipe é diferenciada e são muito inteligentes, são muito espertos. Aí, a nossa condução, a nossa apresentação - minha e do Antero -, tem um diferencial: nós somos muito “naturais” e por isso nós fazemos uma apresentação natural. O Antero é um cara muito sério, muito critico, mas ele tem um lado muito bem humorado. Ele é um cara que sempre está descontraindo o ambiente, gosta de falar muito... E isso acaba quebrando um pouco esse ritmo que o jornal poderia ter uma cara séria - na proposta de ser um noticiário, um hard news -, e o Antero vai vez ou outra, e quebra esse padrão um pouco. E nós tentamos quebrar mesmo: pelo horário do programa - a noite, e as pessoas já estão em casa cansadas, estão indo dormir ou estão chegando do trabalho, da escola. Então, nós tentamos conduzir o programa de uma forma mais suave, mais leve. Mas essa forma que a gente “naturalmente” adquiriu de apresentar, ela não é preparada, não tem uma criação por trás disso: é espontâneo!!! Tanto que às vezes, quando não está a dupla, muda muito o estilo e quebra um pouco o formato da apresentação. Se eu não estou, e está o Antero e um outro; ou se o Antero não está, fica uma coisa mais “séria”. E eu acho que nós acabamos dando um “molho”... hoje eu acho isso, que é um “molho” que ajuda muito o programa. Da mesma forma que o nome SportsCenter ajuda, que a marca ESPN ajuda, acho que nós também ajudamos muito.

14 - Como você analisa essas citações ao que acontece no SportsCenter na mídia em geral? Dessa espontaneidade, dessa descontração? E as aparições no CQC, na Internet, no Pânico... como você encara isso?
P.S.: A primeira vez que houve uma repercussão foi devido a uns nomes que nos dávamos no final do programa que tinham duplo sentido. Então eu falava alguns nomes, que era para tentar pegar os comentaristas. E peguei o Mauro Cezar (Pereira), peguei o Antero, peguei o Paulo Calçade. Eram nomes que tinham algum palavrão no meio. E até teve um dia que o Antero não dava o nome de jeito algum do “Tomaz Turbando”, e aí eu entrei e disse: “se você não vai falar, então eu vou falar... o Tomaz Turbando...” que eram todos nomes que nós incluíamos como assinantes que estavam participando. Lá no tempo da Rádio Globo, o José Calil que na época era repórter, ele mandava esses nomes para redação, quando ia informar o trio de arbitragem: “e representando a Federação Paulista de Futebol “Tomaz Turbando de Oliveira” ou “Oscar Alho da Silva”. E nós dávamos uma relação de assinantes, de fãs de esportes no final do programa, e o primeiro que repercutiu foi esse nome, no Pânico, ainda na Rede TV. E ganhou uma repercussão grande. E nós sempre dávamos risadas no ar. Mas depois o CQC colocou a primeira vez, nós tomamos um susto, porque o jeito deles de apresentar a coisa, e eles brincaram: “Ah, pelo jeito lá não era água!” Aliás no começo, eles nem brincavam com água, já falavam “ O que será que eles estavam fumando lá? Ah, deve ser da ‘boa’”. E o Antero Greco ficou um pouco chateado, aliás, o Antero ficou mais chateado do que eu. Eu fiquei um pouco preocupado, e ele ficou mais chateado. Então o CQC começou a sempre colocar a gente no Top Five, mas aí passaram a levar para um outro caminho: “ah, é a água... que água é aquela?” E eu acho que o próprio Marcelo Tas - que nós somos amigos também -, deu uma segurada, para não levar para esse lado, porque nós não estamos aqui fazendo o jornal drogado. Então no começo eu fiquei um pouco preocupado, o Antero ficou chateado, mas depois virou uma coisa que “já faz parte”... as pessoas ficam esperando “ah, hoje vai ter vocês no CQC? Vai ter brincadeira?” E a TV UOL está toda hora dando destaque, não só as brincadeiras mas a outras coisas legais que nós fazemos no programa. E ainda na internet, tem o pessoal que manda comentários e dentre 100 comentários, uns 96 ou 97 são favoráveis. Apenas 2 ou 3 contra, que deixa o resultado bem pequeno. No global, as pessoas gostam, elas curtem as nossas brincadeiras.
15 - Como você vê o futuro do rádio AM no Brasil?
P.S.: No rádio AM eu realmente não acredito mais. E acho que rádio AM já pode ser comparado ao rádio de Ondas Curtas. Até em razão de uma coisa que me incomoda muito como amante do rádio, é hoje você entrar em qualquer loja que vende eletrônicos e não encontrar mais aparelhos de rádio. Você entra em qualquer loja de eletrônicos e encontra televisão de qualquer tipo. A televisão, pode sofrer 500 mil transformações, mas está ali. Existem pessoas que dizem “vai chegar um dia que as pessoas vão ver televisão nesses pequenos aparelhos como os tablets ou celulares, ou em GPS, etc”. Mas eu acho que mesmo assim, todos vão continuar vendo televisão dentro de casa, num receptor de televisão. Quando você chega em casa e quer assistir a um jornal, ou um documentário, um filme, uma novela, é muito mais legal ver grande, do que ver em tamanho reduzido. Daqui a pouco, quando começarem as transmissões regulares em 3D, todos vão estar em casa assistindo em 3D. Quem é que não gosta de ter Home Theater em casa? Felizmente você consegue comprar seu aparelho de TV, dentre 500 tipos para poder escolher. E rádio, não se tem mais o aparelho para comprar. Isso me incomoda muito. Então, hoje onde que você ouve rádio? No celular? Eu por exemplo eu nem sei usar... eu tenho aqui um iPhone, e nem sei onde que eu pego a rádio (Estadão/ESPN). E não tenho idéia, eu nem entendo e tenho dificuldade para essas coisas. Eu gostava mesmo era de pegar o meu radinho, ligava o meu radinho e ficava ouvindo. E agora eu chego nas lojas e não acho! Eu consegui que o Sérgio Loredo trouxesse para mim do Japão um radinho, mas a sintonia dele é toda diferente... ela não bate. Aqui por exemplo: a Rádio Disney (do grupo ESPN), que fica em 91,3 MHz... você não encontra os 91,3. Então tem que tentar pegar nos 91,5, porque não bate o dial japonês. Aqui dentro, nós recebemos um aparelho simples da Toshiba, que é para podermos sintonizar a rádio (que tem os estúdio principais no Bairro do Limão - Zona Norte de São Paulo, enquanto a ESPN fica no Bairro do Sumaré, Zona Oeste de São Paulo). E em todas as mesas, todos os integrantes da equipe tem aparelhos iguais ao que está na minha mesa, que é para sintonizar a programação da rádio (Estadão/ESPN) a qualquer momento. Então, eu sinto muita falta do aparelho de Rádio para vender. Eu acho que em relação ao rádio AM, a tendência é mesmo acabar nas grandes cidades como São Paulo. Eu acho uma judiação uma rádio como a Jovem Pan só estar com a maior parte de sua programação no AM. Com a excelente programação que a Jovem tem, com a equipe que ela tem, transmitir a maior parte só no AM é um desperdício. A realidade é que se o rádio AM não se reinventar, não sobrevive, porque aqui em São Paulo sequer é possível ouvir claramente emissoras em AM! Eu acho que ele pode até seguir, mas vai ter que ter outras ferramentas - como a internet - para chegar com qualidade às pessoas. Agora, para quem sempre teve o costume de ouvir emissoras AM no radio do carro, é triste. A não ser que com a digitalização, e com a mudança dos equipamentos, seja possível que o rádio AM ganhe o som que hoje tem a transmissão em FM. Se isso acontecer realmente, aí tudo bem, o AM ganha uma sobrevida. O AM seguiria normalmente, se ganhar a qualidade do som do FM. Mas se essa digitalização não acontecer rápido, até conseguir criar novamente o habito nas pessoas para voltar a ouvir o rádio AM... Hoje se ouve rádio no carro apenas em FM. Em casa, poucas pessoas ouvem rádio... fica mais por conta da televisão, internet. O rádio tem que estar muito atento sempre a essas novas formas de transmissão, a essas mudanças, e buscar sempre carona nessas novas formas de chegar às pessoas.

16 - Em uma resposta anterior, você nos explicou sobre a sua dificuldade em narrar pela televisão. Mas falando em termos gerais e não só na narração, o que lhe dá mais prazer em fazer: rádio ou televisão?
P.S.: Eu diria que são momentos. As vezes eu estou mais animado para fazer rádio, as vezes eu prefiro fazer TV. Houve um rádio que eu vivi lá trás... eu tinha uma vida mais ativa no rádio, atuante, estava todos os dias participando de programas, fazendo programas, ajudando a criar. E viajando muito, porque era uma época que ainda nós íamos as transmissões, e eu tive a chance de seguir muito fazendo futebol e outros esportes com coberturas em viagens. Hoje, o “Off Tube” (transmissão por vídeo dentro de um estúdio) está muito presente nas transmissões de rádio, assim como também da televisão. Mas especialmente no rádio. E na minha opinião, rádio nós transmitimos com os “nossos olhos”. O locutor fiel, aquele profissional que é mesmo do rádio vai pro estádio transmitir o jogo com os próprios olhos. O replay da televisão para tirar alguma dúvida, é só um recurso, ele ajuda. Mas quando você vai para o Off Tube, não se consegue mais transmitir com seus olhos. Se transmite com olhos de 16 ou 20 pessoas - que são os câmeras, o diretor de TV, outros profissionais, até chegar ao locutor. Então isso me tira um pouco o encanto de fazer transmissões de futebol pelo rádio, quando a transmissão é em Off Tube. Isso, porque na televisão é diferente: na televisão, se transmite para a pessoa que está em casa, aquilo que a televisão está mostrando para ela. O locutor é mais ou menos, o guia daquela imagem. O profissional traz informação, opinião, e a leva para quem está em casa, a mesma imagem gerada. E no rádio, quando você é refém dessa imagem que a televisão gera para se transmitir um jogo, para quem é de rádio como eu, isso é muito agressivo. Então, isso me tira as vezes um pouco o prazer de fazer uma transmissão pelo rádio. É claro que aqui, eu tenho a sorte de fazer transmissões como Barcelona x Real Madrid, e grandes jogos da Champions League. Isso alivia um pouco. Mas eu já tive muito mais prazer de fazer rádio do que hoje. Hoje eu tenho alegria em fazer televisão. Mais do que prazer, é a alegria, porque eu gosto de fazer o SportsCenter. É isso.

17 - É possível escalar aos nossos leitores, a melhor equipe de rádio que você trabalhou como narrador? Em resumo: um comentarista e dois repórteres?
P.S.: Ah é difícil. É difícil porque eu seria até injusto. Eu trabalhei com grandes comentaristas, e tem outros que ainda hoje estão surgindo. Eu trabalhei com Pedro Luiz como comentarista, trabalhei com Juarez Soares, com Orlando Duarte, Dalmo Pessoa, Loureiro Jr., Paulo Roberto Martins - esse já desde Santos, e nós fizemos dupla durante muito tempo. Então eu acho que é muito difícil escalar uma equipe. Repórteres, trabalhei com grandes profissionais: Osvaldo Luiz - que hoje está em Campinas na EPTV (afiliada da Rede Globo) foi um dos grandes repórteres que trabalhei, Roberto Silva - o Olho Vivo - que já faleceu, Roberto Carmona, Henrique Guilherme, Osvaldo Pascoal, José Calil, Carlos Lima - que hoje está aqui na Estadão/ESPN narrando. Eu não consigo escalar uma equipe. Agora, eu ouvi grandes equipes de Rádio, que foram marcantes para mim: a equipe da Jovem Pan dos anos 1970, depois a equipe da Rádio Globo que o Osmar Santos foi formar em 1977, a tradicional equipe da Rádio Bandeirantes - o Scretch do Rádio -, a equipe 1.040 da Rádio Tupi de São Paulo. Eu ouvi grandes equipes de Rádio, e tenho saudades, muitas saudades desse tempo a partir dos anos 1970 que foi quando eu comecei ouvir... a partir de 1974, 1975. Tenho saudades de ouvir o Joseval Peixoto narrando no rádio. Eu tenho muitas saudades de ouvir esse povo todo, e tenho também saudades das equipes por onde eu passei, porque eu tive sorte de trabalhar com muita gente boa. E esse negócio de ter rodado: Gazeta, Record, Globo, Bandeirantes, eu fui “tropeçando” por várias pessoas. Profissionais muito bons! E aqui na ESPN tem o PVC (Paulo Vinicius Coelho), o Paulo Calçade, e muita gente boa.
18 - Tem alguma coisa no rádio que você ainda não fez mas gostaria de fazer ainda?
P.S.: Eu já fiz muita coisa no rádio: transmiti grades eventos - Copas do Mundo, vários jogos de Libertadores como a campanha vitoriosa do São Paulo. Transmiti Fórmula 1 com Ayrton Senna começando e Piquet parando. Eu fiz muita coisa no rádio em termos de transmissão de evento. Também fiz muitos programas. Eu gostaria na verdade de ver o rádio mais forte, mais envolvente. A minha esperança é sempre que o rádio consiga voltar um pouco no tempo e ser aquele rádio que eu aprendi a ouvir e que participei profissionalmente. Um rádio mais ativo, um rádio mais presente nas grandes coberturas. Eu gostaria de ver um rádio forte! O Rádio forte te leva naturalmente a estar fazendo programas, grandes eventos, grandes coberturas.

19 - Você pode revelar aos nossos leitores o seu time do coração?
P.S.: Posso... eu torço pelo Santos. Mas eu torço pelo São Paulo. Na verdade eu sou corintiano. Quer dizer... eu sou palmeirense na verdade (risos). Tá bom... de verdade eu sou sãopaulino! Eu sempre fui sãopaulino sim.

20 - Antes de começar a entrevista, você nos contou que lê habitualmente o BastidoresdoRadio.com, e na condição de leitor quer deixar uma mensagem final para nossos demais leitores?
P.S.: Na condição de leitor, de estar sempre acessando e lendo, que o site continue muito forte e que ele possa crescer cada vez mais. Porque esse nosso universo do rádio, ele é muito grande, e ao mesmo tempo muito pequeno. Então, se nós tivermos sempre do nosso lado o "Bastidores do Rádio", entre outros sites que estão aí vivendo e mergulhado com a gente nessa paixão que é o Radio, isso sempre vai nos dar sempre um pouco mais de esperança. A mensagem é essa: vamos continuar juntos, vivendo e respirando Rádio, que ainda é o veiculo mais rápido de massa no mundo! Ele é imediato, mas precisa ser um pouco mais "inteligente". Acho que os donos de rádio precisam acreditar mais no rádio. Porque nós profissionais acreditamos! Nós vestimos a camisa, nos colocamos na linha de frente, mas eu sempre tenho essa impressão que o dono da emissora de rádio, o cara que está lá em cima, ele não confia e nem acredita tanto. Esse pessoal precisa acreditar mais, confiar mais, ser mais ousado, mais agressivo, dar mais retaguarda e colocar o Rádio de novo na posição que ele sempre esteve. Um abraço a todos.
www.BastidoresdoRadio.com
Entrevista realizada por Emilcio Rogério Zuliani em outubro de 2012 - FOTOS: Álvaro Aiose Junior.