COLUNA DO CHICO
Imprensa Livre e a crise mundial da democracia
15 de janeiro de 2018 - segunda-feira















Francisco Paes de Barros, diretor geral da Rádio Capital AM

A partir de hoje, dia 15 de janeiro, o site Bastidores
doRadio.com passa a contar com a Coluna do Chico. Uma colaboração mensal do veterano radialista, Francisco Paes de Barros.

Experiente diretor de rádio, ele já dirigiu as principais emissoras de rádio AM da cidade de SP. Por onde passou as emissoras sempre conquistaram as primeiras colocações: Record, Globo, América, 9 de Julho e atualmente está na Rádio Capital AM (1.040 kHz).

A Coluna do Chico não trata especificamente sobre rádio mas fala sobre comunicação. A partir de hoje vamos conhecer a opinião de um dos poucos diretores de rádio, que ainda levam a sério a profissão.

COLUNA DO CHICO
Edição 001
 

Em 15 de julho de 1971, o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, comunicou ao povo americano ter aceitado o convite do primeiro-ministro Chu Em-Lai para uma visita oficial à China. Foi a primeira visita de um chefe de Estado dos Estados Unidos ao país asiático. Passados 56 anos, Estados Unidos e China são as duas maiores potências econômicas do mundo, mantêm intensa relações comerciais e são concorrentes na disputa por outros mercados.

A China vive sob um regime totalitário. A partir de 1978, com as reformas econômicas, adotou a “economia socialista de mercado”, capitalismo de Estado. Sua população é de 1 bilhão e 400 milhões de pessoas, das quais 43 milhões vivem abaixo do nível de pobreza.

Os Estados Unidos são um país historicamente capitalista e democrático. Os anos 1950 e 1960 foram os  anos de ouro da economia norte-americana, época marcada pela produção e pelo emprego. O trabalhador era reconhecido. O setor financeiro tinha performance discreta. As grandes fortunas  pagavam altos impostos ajudando o governo a investir, principalmente na educação e na saúde, beneficiando os pobres.

A partir da década de 70, principalmente no governo Ronald Reagan (1981-1989), os cidadãos mais ricos e os grandes conglomerados foram privilegiados pela política econômica. O trabalhador virou gente de nível inferior. A produção caiu e a especulação financeira cresceu muito, levando ao colapso de 2008. A população dos Estados Unidos é de aproximadamente 323 milhões de pessoas, das quais 40 milhões vivem abaixo do nível de pobreza.

No mundo de capitalismo globalizado, China e Estados Unidos são peças chaves do Livre-Comércio, movido por um consumismo exacerbado e de forte influência na economia mundial. A economia chinesa tem conseguido diminuir espetacularmente o número de pessoas que vivem abaixo do nível de pobreza. Foi um feito notável, reconhecido mundialmente. Não obstante, os desafios que a economia chinesa tem pela frente são colossais.

Talvez, em razão de uma eventual guerra comercial contra a China, o atual presidente americano, Donald Trump, vem realizando a maior mudança na economia do país dos últimos 70 anos. Diminuiu os impostos dos mais ricos e deu grande incentivo aos conglomerados e ao setor financeiro. Os mais pobres estão mais pobres, acentuou-se a desigualdade. Trump concentrou a renda e o poder.

China e Estados Unidos entraram em 2018 travando uma acirrada competição comercial. O governo chinês reclama que o protecionismo defendido por Trump ameaça o sistema multilateral de comércio. Já o governo americano argumenta que, entre os grandes países, a China é o mais protecionista.

O governo Trump relega a um segundo plano os acordos multilaterais. Os gastos dos consumidores norte-americanos respondem por aproximadamente 70% do PIB dos Estados Unidos. Trump  quer usar o poder econômico e militar dos Estados Unidos para conseguir significativas vantagens na balança comercial. Em 2016, sob o governo Barack Obama, o déficit na balança comercial foi de 502 bilhões de dólares.

O governo Trump se preocupa exclusivamente com o seu país. Para o presidente não interessa se  o mundo está dividido entre as pessoas que consomem e as que não consomem - os mais pobres, que “são zero econômico”.

A sociedade de consumo desenfreado sofre de um abalo emocional que se manifesta no desejo incontrolável de “comprar a felicidade”. Tal sociedade vai se tornando individualista e despolitizada, deixando de exercer sua cidadania. Uma realidade: nas últimas eleições tanto nos Estados Unidos quanto no Canadá e na Europa Ocidental, aproximadamente 40% dos eleitores não comparecem para votar.

A propósito, tem razão o professor e escritor Jung Mo Sung, que definiu: “A identidade pessoal está hoje profundamente ligada ao consumo. Para ser reconhecido como ser, é preciso ter determinados bens de consumo. Quando alguém busca consumir a mesma mercadoria consumida pelos ‘modelos’ da sociedade, não está buscando simplesmente ter algo, mas sim está buscando ‘ser’ alguém.” (Sujeito e Sociedades Complexas - Editora Vozes).

A sociedade de consumo exacerbado tem bilhões de seguidores em países democráticos, autoritários e totalitários. Por oportuno, lembro que, conforme o Relatório Mundial para a Natureza, do WWF (World Wildlife Fund), “a humanidade está consumindo mais do que a Terra é capaz de repor, gerando consequências irreversíveis ao meio ambiente.”

Felizmente existe a Imprensa Livre, que segue o caminho da solidariedade, da liberdade, do progresso e da fraternidade. Ela está atenta aos quatro perigos iminentes que ameaçam a democracia: o avanço militar e econômico da China; a política econômica e protecionista do atual governo americano, aliada à maneira pela qual o presidente Trump tem tratado a imprensa do país; a despolitização provocada pelo consumismo exacerbado; e o fato de, de acordo com a ONU, mais de 900 milhões de pessoas viverem na extrema pobreza.

A Imprensa Livre provoca o senso crítico da sociedade de consumo. Prega uma convivência fraterna, de ternura e de solidariedade com os mais pobres, que se sentem jogados e esquecidos no anonimato. A Imprensa Livre é o oxigênio da democracia por onde o povo respira esperança.

A Imprensa Livre é um instrumento de inclusão social. Ela está comprometida com os direitos humanos: busca resguardar a solidariedade, a igualdade, a fraternidade, a liberdade e a dignidade da pessoa humana. Conciliar a liberdade individual e o funcionamento das instituições. Esse testemunho de conduta lhe permite participar da construção de uma nova ordem mundial: econômica, jurídica e política.

É preciso ajudar a humanizar a humanidade. O contrário da humanidade é a brutalidade. É a hora e a vez da globalização da solidariedade.

Francisco Paes de Barros é radialista
Publicidade:
#Compartilhe essa notícia: